BLOG DO GUSMÃO

Chega!

Talvez meu desamor eterno a essa visão de mundo chamada “senso comum”, coisa sem validade comprovada e, igualmente, aos conselhos da Globo e ao que certas pessoas, por conta própria, estabeleceram como verdade verdadeira, me force a ir na contramão de tal “sabedoria”.

Por Antônio Lopes.

Em geral, as pessoas costumam fazer planos de vida na passagem de um ano para o outro (planos que, em geral, não cumprem!). Eu, diante dos aborrecimentos que tive em dias recentes, resolvi fazer os meus (e cumpri-los), doa a quem doer, mas esperando não causar dor a ninguém.

O indivíduo, salvo a exceção dos que nascem em berço nobre, não eu, que sempre estive mais perto da Senzala do que da Casa Grande, se chega à idade madura, enfrenta um dilema meio shakespeariano de fazer ou não fazer (o que quer): quase sempre não o faz, pois são grandes as pressões familiares, de trabalho ou, por último mas nã menos importante, a falta de condições financeiras. Este é um país capitalista que, pelas ideias do facínora que nos dirige, só nos deixará livre o pensamento – até o uso da praia tende a ser tributado, passando a ser território dos ricos.

É regra sabida que os idosos têm de ser protegidos, empacotados em meias, cachecol, galochas, canja de galinha, chazinho de camomila, essas coisas. Nada de comida “pesada”, sendo o máximo da farra chegar ao peito de frango grelhado e salada crua. Bebida alcoólica, nem pensar. Uma dose de uísque, então, é pôr na cova os dois pés, e nunca mais os tirar.

Talvez meu desamor eterno a essa visão de mundo chamada “senso comum”, coisa sem validade comprovada e, igualmente, aos conselhos da Globo e ao que certas pessoas, por conta própria, estabeleceram como verdade verdadeira, me force a ir na contramão de tal “sabedoria”.

Imagino que a velhice – rebatizada de “Melhor Idade” pela mídia chegada a eufemismos imbecis – é o tempo de libertar-se das amarras referidas (muitas vezes, elas nos deixam, naturalmente) e fazer o que não foi feito, enquanto não chega a Inexorável, a que não cede a rogos nem lamentos. Isto, desde que nos persista uma nesga de saúde e disposição. E que se possa pagar a fatura, pois este é um país capitalista etc. etc.

Pessoalmente, já dei às recomendações de senso comum acima referidas o tempo necessário, incluindo o isolamento devido à pandemia. Chega! Chegado à chamada idade provecta, a Indesejada já pondo sobre mim seu olho agourento, quero aproveitar e viver mais um pouco, não apenas passar cronologicamente uns meses pela vida, lembrando o poeta famoso. Mas vivendo de verdade, agradecendo, retribuindo afetos e, como diziam os cangaceiros do Pajeú, meu berço, amando e querendo bem. Se chegar a 2021 vivo e me mexendo, vou lançar um livro (por certo, meu canto de cisne) e viajar um tanto. Tão logo as empresas de transporte sejam liberadas, estarei nas estradas de Minas, sozinho ou acompanhado: Ouro Preto, São João del Rei, Caxambu, São Tomé das Letras e Congonhas que me aguardem, estou chegando.

Amigos do Rio de Janeiro falam de uma festinha para comemorar meus 80 anos. Se a festa é pra mim, não comparecer seria uma grosseria. E gente de Buerarema não costuma ser grosseira. O pior que pode me acontecer, ao trocar o pijama e os chinelos da cautela pelos tênis e a velha calça jeans da aventura, é morrer. “E daí?” (como disse o grande estadista Jair Bolsonaro, diante das mortes por Covid-19) ou, como diria um também grande estadista baiano, com origem em Itabuna, “Se morrer, morreu…”  Espero que, na cama, na rua ou no bar, em tal sucedendo, haja alguém que, entre uma improvável lágrima e outra, reaja à tristeza e diga: “Morreu na luta!…

Antônio Lopes é jornalista.

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