BLOG DO GUSMÃO

A QUEDA DA VEZ

Por Malu Fontes

Nem bem o humor da presidente da República tivera tempo para restabelecer-se da queda de Antônio Palocci de seu ministério no primeiro semestre de governo, eis que outra comédia de erros tem lugar no Planalto, e com cores ainda mais fortes e poluídas. Com uma cabeleira literalmente mais negra que a asa da graúna, emerge na tela nossa de cada dia a figura soturna do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, um tipo de aparência semelhante à dos vilões de meia idade das novelas mexicanas no SBT. Perto do lamaçal em que Nascimento e seus comparsas de partido submergiram em menos de uma semana, as águas turvas de Palocci parecem agora equivaler a um lago de cisnes.

Se o país se assustou com a geometria do aumento patrimonial de Palocci, de 20 vezes em quatro anos, o que dizer da matemática miraculosa que se operou sobre o patrimônio de Gustavo de Morais Pereira, que aumentou 86.500% em dois anos, conforme repetiam em coro todos os jornais e telejornais da semana? Comparado ao de Gustavo, o ritmo da multiplicação do patrimônio de Palocci parece um punhado de moedas guardáveis em um cofrinho de barro em forma de porco.

Apenas dois anos após a criação, com um capital de apenas R$ 60 mil, a empresa Forma Construções, do rebento do ministro, acumulou um patrimônio de R$ 50 milhões.

CANASTRÃO – Em um país em que as estradas ou são como queijo suíço, a ameaçar a vida dos motoristas, ou estão sendo pedagiadas a intervalos geográficos cada vez mais curtos, o fato de uma farra de corrupção e cobrança de taxa de sucesso a empreiteiras operar dentro do Ministério dos Transportes torna o escândalo político da vez ainda mais abjeto. Como se fosse pouco ler toda a sorte de desmandos atribuídos ao senador-ministro agora caído da segunda função, na quarta-feira aparece uma cereja no bolo: um vídeo obtido pela revista Istoé, compartilhado com todas as emissoras de TV e postado no site da revista, mostra a conversa mole de Nascimento negociando obras com um deputado do Maranhão, antes deste oficializar sua mudança de partido, do PDT para o PR, o partido do ministro, um das bases de apoio do governo no Congresso.

O tom mafioso da conversa é claro: é só mudar de partido que haverá mais dinheiro, travestido de orçamento de obras milionárias de interesse público mas que dificilmente saem do papel. E, quando saem, custa 10 vezes mais e cumprem 10 vezes menos das promessas constantes no orçamento inicial. Para tornar a cena ainda mais politicamente pornográfica, quem intermediava a negociação da compra de novos parlamentares para o PR, na cena do vídeo e na rotina do Ministério dos Transportes, era o impagável Valdemar Costa Neto, outro canastrão de vida e fôlego longos na história recente da corrupção brasileira, um dos réus do mensalão e cujo enriquecimento com dinheiro público já obteve a proeza até de ir parar nas colunas sociais, quando sua ex-mulher, uma socialite paulista, Maria Cristina Mendes Caldeira, num desses acessos de ex, contou o que sabia e mais um pouco. Neto acabou renunciando ao mandato para não perder os direitos políticos e, claro, na próxima eleição conquistou o mandato de volta, graças à benevolência dessa categoria sempre tão compreensiva da sociedade brasileira, o eleitorado.

MAFALDA E O PIG – O fato é que a queda do segundo ministro em menos de um mês não soa nem um pouco agradável para Dilma Roussef, sobretudo porque é bom não esquecer que ambos caíram de podre não por iniciativa, mão firme ou vigilância bem sucedida do próprio governo, mas porque a imprensa denunciou. A multiplicação dos dinheiros de Palocci veio à tona em manchete da Folha de S. Paulo em maio e os episódios de corrupção explícita foram tornados públicos pela revista Veja da semana passada.

Como diz a precoce Mafalda em uma das tirinhas geniais de Quino, deve ser “horrível bater em alguém que tem razão”. Ou seja, a parte do governo e da própria imprensa que reivindica para si a alcunha de blogueiros progressitas podem até repetir a cantilena de que a Veja e a Folha fazem parte do Partido da Imprensa Golpista, o tal PIG, mas não há como negar que a ribanceira em que Palocci e Nascimento colocaram o Governo Dilma não foi invenção de porquinhos nas redações dos dois veículos para desestabilizar o governo.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.

WhatsApp
Facebook
Twitter
Email
Print

Respostas de 2

  1. O Pallocci declarou à Receita os proventos recebidos quando estava FORA do Governo. Se não tivesse pago os rendimentos ao IR,como costumam fazer alguns espertos que estão no governo, ninguém saberia do aumento do seu patrimônio. Certa ocasião Rui Barbosa disse que no futuro, o homem teria vergonha de ser honesto.

  2. Q a imprensa ajude a derrubar todos os atrapalhados do governo é normal. O golpismo da imprensa se caracteriza qdo tenta alterar o resultado das urnas querendo derrubar o governo democraticamente eleito, baseado em divergências políticas e inventando situações a todo momento, como fez com Lula. Nos casos em tela, a meu ver, a imprensa tem cumprido corretamente seu dever. Resta a Dilma escolher melhor seus assessores, ou não conseguirá governar pois a cada dois meses precisará trocar algum ministro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Newsletter
Siga-nos
Mais lidas
julho 2011
S T Q Q S S D
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031