BLOG DO GUSMÃO

TELEANÁLISE: O HAITI TAMBÉM É AQUI

Por Malu Fontes.

“Os haitianos que rezem para que as câmeras do mundo demorem muito por lá, pois depois que elas partirem, os humanitários de última hora não vão achar a menor graça em ajudá-los. Se ninguém vai ver, que graça tem?”

Há dias as emissoras de TV de todo o mundo, especialmente as brasileiras, em função da presença das tropas do Exército Brasileiro no Haiti, veiculam diariamente imagens e notícias do terremoto, uma das maiores tragédias naturais ocorridas nos últimos tempos. À medida que o tempo passa, as informações sobre o terremoto em si vão se tornando corriqueiras, gerando a necessidade de incorporar diariamente à cobertura midiática novas formas de abordagem e ilustração do caos no país, tido e havido como o mais pobre das Américas.

Na sucessão espetacular de fatos dantescos, têm prevalecido os milagres da sobrevivência, relacionados aos sucessivos resgates, tantos dias depois, de sobreviventes sob os escombros onde acreditava-se não ser mais possível encontrar gente viva. A imagem do garotinho sendo resgatado sorrindo com os braços estendidos para cima, num gesto de alegria e comemoração, enterneceu os corações do mundo e deu uma lavada e tanto na alma de quem, nessas horas, acredita piamente na comunhão e na igualdade entre os homens.

DOMESTICAÇÃO – A tragédia natural do Haiti, juntamente com a tragédia social, histórica, política e econômica que já existiam anteriormente, resultou num cenário de caos jamais visto pelas câmeras de TV de todo o mundo, não em tamanha proporção. Covas coletivas para enterrar mais de 100 mil corpos, multidões sedentas e famintas agredindo-se com paus e pedras nas ruas, milhares de órfãos, milhões de desabrigados, entidades humanitárias sem a menor idéia de por onde começar a ajuda, crianças roubadas nos hospitais pelo mercado internacional de adoção clandestina e coisas do gênero tem sido rotina nos telejornais do mundo.

Diante desse cenário de horrores sucessivos a televisão tem evidenciado duas teses evidentes. A primeira delas: a televisão aplica aos objetos para os quais volta suas câmeras uma espiral de três fases distintas. Primeiro, ao trazer pela primeira vez as imagens e a descrição verbal de um fato para o telespectador, ela informa e atiça a curiosidade do telespectador, fazendo-o desejar saber e ver mais e mais. A segunda fase caracteriza-se justamente pela construção de um espetáculo imperdível acerca de tal fenômeno, conduzindo o telespectador através do fluxo de imagens e narrativas e levando-o a sofrer, a chorar, a emocionar-se, inclusive positivamente, dependendo da natureza do fato.

E de tanto explorar um fenômeno, sobretudo nas emissoras abertas, voltadas para um público mais disperso e diverso, a TV encaminha seu objeto de atenção para a última fase, a da domesticação ou entediamento, fase na qual o senso comum tende a mudar de canal caso continue sendo submetido a um mesmo tema durante dias seguidos. Ocorre, na última fase, um tal nível de acostumamento com o fato que o telespectador comporta-se como se dissesse: ‘Isso, de novo? Enjoei’. E assim, um novo ciclo se inicia, em torno de outro fato, novo.

FÁTIMA E BRUNI – A segunda tese comprovada pelo terremoto do Haiti é a de quanto mais frívolas são as pessoas, mais necessidade têm de demonstrar aos olhos do mundo sua solidariedade com as tragédias do mundo, preferencialmente com aquelas ocorridas geograficamente muito longe e desde que possam ajudar os miseráveis em frente às câmeras e mandando informar a imprensa. Nunca se viu tanta gente importante, do Brasil profundo, do Brasil raso e de todo o mundo, querendo ajudar os sedentos, os famintos e as criancinhas do Haiti. Entre Fátima Mendonça e Carla Bruni, por exemplo, a primeira dama do Estado da Bahia e a primeira dama da França, o que poderia haver hoje mais em comum senão as noites insones e a mobilização de ambas pelos desvalidos do Haiti? Entre os astros internacionais e as estrelas do Axé as semelhanças das iniciativas também nunca foram tão próximas.

É óbvio que não se questiona a necessidade real de ajuda por parte dos haitianos, do mesmo modo que se sabe que os olhos e as iniciativas dos países mais ricos do mundo estão voltados para a ajuda às vítimas. Mas isso não significa, no entanto, que os telespectadores miseráveis do Brasil (sim, os miseráveis gostam tanto ou mais de TV que os mais privilegiados) não possam se perguntar por que eles, que estão logo ali, aqui, são tão invisíveis para essa gente de alma tão boa desse país tão solidário. Sim, enquanto o Haiti clama por socorro, simultaneamente, creches, orfanatos, crianças desprovidas de tudo, aqui ao lado, ali na esquina, merecem menos atenção que os jumentos da Lavagem do Bonfim.

Embora o Brasil não tenha vivido nenhum terremoto, milhões de brasileiros são um poço até aqui de necessidades imediatas. Será que essas pessoas generosas que demonstram saciar sua sede de humanismo ajudando os haitianos não conseguem dar uma olhadinha sequer para os desvalidos do quintal? Que falta que faz uma câmera de TV perto de um miserável. A TV é, sem dúvida, o mais eficiente promotor de solidariedade. É só enquadrar a madame que ela se derrete em ajuda humanitária. Os haitianos que rezem para que as câmeras do mundo demorem muito por lá, pois depois que elas partirem, os humanitários de última hora não vão achar a menor graça em ajudá-los. Se ninguém vai ver, que graça tem?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 31 de Janeiro de 2010.

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