Por Malu Fontes.
A cada ano, aperta-se o cerco ao marketing e aos marqueteiros de cada um dos candidatos que prometem salvar a pátria e levar o país e o povo ao paraíso. O cerco aos marqueteiros deve-se sempre às seqüelas de todas as últimas campanhas eleitorais. De mensalão a mensalinho, teve de um tudo, como se diz na Bahia. Ninguém saiu incólume dos escândalos em torno de dinheiro arrecadado para as campanhas de forma ilícita e que vai parar sabem muito bem os deuses onde. Nem bem a campanha começou e metade ou mais dos telespectadores lamentam a não invenção de uma descarga auricular e visual, para ativar a cada vez que ouvem ou vêem na TV a referência repetida a dossiês, seus encomendadores, financiadores, seus algozes e suas vítimas. O povão, despolitizado e protagonizando um pragmatismo de algibeira na hora de escolher em quem votar, nunca quis e não é agora que vai querer saber quem fez qual dossiê, para quê e contra quem.
CARISMÁTICOS – Paradoxalmente, no entanto, embora os marqueteiros de cada candidato nunca tenham estado tão à espreita e espreitados quanto nesta campanha que se inicia, por contas das relações promíscuas, ilícitas e sempre perigosas entre as estruturas das campanhas que regem e os financiadores empresários, é fato que serão mais uma vez eles, os marqueteiros, que vão fazer o milagre de tornar cada um do trio de candidatos que está na linha de frente da campanha minimamente digerível para o grosso do eleitorado despolitizado.
O fato é que, carismáticos como são os três, com uma capacidade indescritível de se comunicar com o povo como têm demonstrado, os marqueteiros nunca tiveram que rebolar tanto para vender seus bonecos. Sim, pois entre a imagem alegre de Serra, o carisma de Dilma e o vanguardismo de Marina e a essência real de cada um há um oceano de distância. Os três têm empatia popular tamanha que, caso a Seleção Brasileira fique bem na fita da Copa, Dunga, com sua roupitcha made by o moderninho Alexandre Herchovitch, vai ser disputado a tapa para ‘agregar’ valor eleitoral a cada um deles. Qualquer empurrão, será bem vindo, sobretudo para quem disputa votos com Dilma, cujo cacife eleitoral é inexistente, piorado com a falta de carisma e empatia do vice Michel Temmer, tem o presidente Lula como cabo eleitoral.
RUIM DE PALANQUE – É fato: o que está em jogo é a capacidade dos marqueteiros de transformar gente muito ruim de palanque, e portanto de vender eleitoralmente, em bonecos simpáticos, sobretudo no horário eleitoral gratuito na TV.
MASTURBATÓRIO – Dilma Roussef discursando gera no eleitor a vibração semelhante experimentada por um sujeito que perde uma noite de sono e tem que ouvir um sermão em outra língua. A roupa, o penteado e o sorriso de câimbra nada ajudam. José Serra, fazendo-se de tipo nordestino, com chapéu de couro, enquanto compara Lula a um rei francês, num país que conhece mesmo é Xuxa, Hebe e o Saci Pererê, terá que, para ser transformado num tipo popular, recorrer a uma assessoria de Sílvio Santos. E além disso, tá no sal, como se diz, pois se disser que Lula não presta é escorraçado pelos mais pobres. Se disser que Lula é bom, com o intuito de bancar o simpático e atrair os votos dos lulistas que têm dificuldade em digerir a figura de Dilma, vai ser pego no contrapé pelos marqueteiros da candidata do governo, que vão usar a seu favor a tese que ela é que a candidata que reflete o desejo de um presidente tão bom que até seu adversário o elogia. E tem mais: quem suporta esse nhémnhémnhém masturbatório na linha bico doce em torno do sonho irrealizado dos tucanos de ter o queridinho das Minas, Aécio Neves, como vice? Já deu. Hora do tucanato dar forward no filme.
Quanto a Marina, é a candidata dos milionettes ativistas da indústria do bem que dormem em lençóis de 400 fios egípcios nos Jardins, em São Paulo, e no Leblon, no Rio. A candidata é tão do bem e política e ecologicamente correta que diz na imprensa ser adepta da beleza natural, da moda tribal e que, por isso, só usa beterraba crua com azeite para dar um efeito rosado nos lábios e só usa colares feitos por índios. Se o seu ‘povo da floresta’, termo adorado por ela e por quem a segue, não ganhar logo um glossário para entender o significado do que ela diz em torno da biodiversidade e da sustentabilidade, vai achar que as falas da candidata, acompanhada por lideranças locais abraçados à causa do feto feliz, foram escritas por James Cameron, o criador de Avatar e seus naviis. O problema é que o povo da floresta nunca viu Avatar e nunca ouviu falar em Cameron. E é verdade, algumas tribos indígenas não abortam. Preferem matar o bebê quando nasce, enterrado vivo, para devolvê-lo à natureza, quando nasce com alguma anomalia.
Assim, com tantos candidatos nem um pouco trabalhados, como diz a gíria, na parada do carisma, quem vai ganhar ou perder a eleição não é nenhum dos três. O perdedor ou ganhador maior será exclusivamente o presidente Lula, que nem candidato é. E o vencedor, seja quem quer que seja o eleito, será o marqueteiro da candidatura vitoriosa. Mas, como em marketing tudo pode, transformar um desses três personagens dessa expedição eleitoral em carismático não é impossível, afinal a Rede Globo e a Ana Maria Braga transformaram um papagaio de espuma, o Louro José, num ídolo nacional. E Dunga, se voltar com uma taça, vai ser um aliado e tanto nessa fantástica construção eleitoral do boneco mais carismático.
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 20 de junho de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. [email protected]









Uma resposta
A missão de marqueteiros é meio que lapidar a hipocrisia do “boneco”. Com objetivo provável de sangrar o erário, eles sabem que não temos saída: temos que eleger uma quadrilha nova, mesmo que nos dividamos em partes iguais. Encarcerados pela lei, nessa justiça em decomposição, temos, nós do povo, nosso algoz. Como olhar para Temmer e confiar, por exemplo? O perdedor, para qualquer resultado, será mesmo o povo. Nós. O vencedor, mais um vez, a indignação. Se, ao menos, não reelegêssemos ninguém…