Por Malu Fontes.
Há uma semana, o mundo rememorou o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas, o World Trade Center, em Nova Iorque, o evento trágico-espetacular que inaugurou com imagens inesquecíveis o Século XXI, imagens transmitidas ao vivo, pela televisão, para todo o mundo. As cenas dos dois aviões lotados de pessoas e combustível chocando-se contra os edifícios-símbolo do capitalismo do Século XX e transformando-os em chamas, fumaça e morte, matando cerca de três mil pessoas, redefiniram o cenário geopolítico do mundo e inauguraram um novo tipo de medo: globalizado, volátil, sem forma física definida, um terror alimentado não por guerras territoriais, ameaças entre potências econômicas disputando poder, quedas de braço político-ideológicas na linha capitalismo versus socialismo, mas um medo alimentado por elementos muito mais etéreos, como religião, intolerância, valores morais, fundamentalismo e diversidade cultural.
Nove anos depois da queda do WTC, a televisão do mundo, só para variar, demonstra que é da sua natureza não conseguir evitar engolir a isca da vulgaridade e se deixar seduzir por personagens rasos. Nem mesmo a sacralidade que o 11 de setembro tem para os cidadãos dos Estados Unidos foi suficiente para que a própria TV norte-americana, ou estadunidense, como exigem os códigos discursivos da re-semantização do mundo, conseguiu evitar que as principais redes de TV tornassem uma celebridade mundial por uma semana o fanático e surtado pastor sem ovelhas Terry Jones.
BEATO SALU – Líder de uma igreja interiorana com apenas 50 fiéis, Jones recebeu da TV mundial seus 15 minutos de fama e sem esforço algum: apenas percebeu que se anunciasse um desatino qualquer o seu objeto de desejo, ou seja, as câmeras de TV, viriam correndo prostrar-se aos seus pés. E não deu outra. Assim foi. Anunciou, como uma espécie de Beato Salu globalizado pela CNN (personagem de Dias Gomes, na novela Roque Santeiro), que iria fazer uma fogueira com exemplares do Alcorão, o livro sagrado do islamismo. O álibi era um protesto contra a construção de um centro islâmico a poucos metros do Ponto Zero, o local onde ficavam as torres gêmeas.
O fato importa, mas a TV acha muito auspicioso que ele traga junto um personagem. Quanto mais freak, burlesco, raso, vulgar ou insano, melhor. A Copa do Mundo? Não basta em si. É preciso criar factóides surreais, mas reais, como um polvo melequento e uma paraguaia desinibida que teve a idéia mais revolucionária de todos os tempos para ficar famosa, tirar a roupa para o mundo, ser chamada de musa e ganhar dinheiro: enfiar um celular entre os peitos, recriando e adaptando uma ‘espanhola’, como um aparelho celular substituindo outra coisa. Do mesmo modo, há muito tempo a TV descobriu que, tão ou mais importante que a condenação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani à morte por apedrejamento na cabeça, são as reações das celebridades do mundo, e das nulidades também, sobre o episódio.
CIGANOS – O que vende mais? Uma entrevista sobre a condição feminina no islã ou uma declaração revoltadíssima da primeira dama francesa, Carla Bruni, em defesa de Sakineh? Em nome do seu ativismo fashion, La Bruni , de dentro dos seus modelitos Gucci e do conforto das sapatilhas Chanel, bradou ao mundo. Foi chamada, em retaliação, pelos iranianos, de adjetivos e substantivos entre os quais prostituta, adúltera, devoradora de homens e destruidora de lares eram os mais elogiosos. Mas continua sendo curiosíssimo que a mesma televisão do mundo que se interessa tanto pelo ponto de vista de Bruni sobre Sakineh não tenha se lembrado até agora de perguntar por que a primeira dama não diz um “A” sobre os arroubos de xenofobia do seu amado marido, Nicolas Sarakozy, que declarou guerra aos ciganos na França e quer expulsá-los um a um.
E no panteão de personagens vulgares que têm lugar garantidíssimo no estrelato televisivo do mundo, um outro pastor e suas seguidoras fiéis, em Ohio (EUA), liderou um movimento revolucionário em nome da moral e dos bons costumes. Como era de se esperar, ganharam fama internacional e generosa minutagem na TV. Contrárias a uma casa de streap tease, as ovelhas do pastor lançaram mão de filmadoras, registraram todas as placas dos carros que estacionavam na boate e espalharam as imagens pela rua e na Internet, perguntando às esposas bem casadas se sabiam que, em tais dias e horários, o carro da família estava em um antro da pornografia. As stripers foram transformadas em Genis e, revoltadas, fizeram um anti-movimento, na praça da cidadezinha de Warshaw. Como a TV é generosa, também deu espaço para as moças se defenderem e um bom motivo para os apresentadores televisivos do mundo darem suas risadinhas oblíquas nas bancadas noturnas dos telejornais após a exibição de imagens e falas das meninas.
AL JAZEERA – E, diante do gosto irremediável da televisão pelo espetacular, é fato, trocadilhos infames à parte, que a terra chilena sobre os mineiros caiu como uma luva. No instante seguinte, mesmo diante da informação de que o processo de resgate levará meses, a TV do mundo inteiro montou um circo na superfície da mina. Cada vez que um mineiro faz xixi, espirra, fica irritado ou insone, o mundo inteiro acompanha, o que faz esses reality shows de patricinhas e mauricinhos da Globo parecerem um acampamento de malhação visto por meia dúzia de adolescentes. Reality de verdade é o que a TV globalizada está exibindo ao vivo, direto do Deserto de Atacama, no Chile, com gente de verdade e emoções de mentira na tela. A cada criança que nascer, seja filha, neta ou bastarda de um mineiro, será batizada com o nome de Esperança e terá sua cara de recém-nascida exibida até na Al Jazeera.
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 19 de Setembro de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. [email protected]








