BLOG DO GUSMÃO

QUATRO BAIANOS FALAM DOS 100 ANOS DE JORGE AMADO

Por Daniel Telles, do Estadão.

Sem saber fazer “mesmo que seja um ovo cozido”, como conta sua filha Paloma, Jorge Amado ajudou a definir a culinária baiana com seus personagens saídos das ruas de Salvador e das fazendas de cacau. Ao redor dos fogões de Dona Flor e Gabriela, das moquecas e peixadas preparadas no saveiro de mestre Manuel e das comidas oferecidas a Xangô, há mais que gastronomia. À mesa, convivem senhores de cacau, caboclos, madames, vadios, prostitutas, religiosos, negros e brancos, em uma ideia de Brasil socioculturalmente mestiço, ora imaginária, ora real.

E numa Bahia acostumada aos modos europeus, Jorge Amado pôs a culinária de negros, sertanejos e pobres nas casas da elite branca, fosse com Gabriela cozinhando para coronéis do cacau, fosse com Dona Flor repassando receitas a senhoras nobres. E com elas, fez “a comida como vocabulário, como uma linguagem que mostra para as elites metidas a francesas quais seriam nossas raízes”, como explica a antropóloga Lilia Schwarcz.

Misturando influências, criou cozinheiras como Flor, “com a ciência do ponto exato, com o dom dos temperos”, essencialmente baianas, nascidas da mistura de origens e diplomadas em artimanhas do uso ingredientes locais com receitas adaptadas do povaréu europeu e africano.

“A obra de Jorge Amado e a cozinha nela contida são elementos fundamentais na construção da baianidade”, diz o antropólogo Jeferson Bacelar. Nos seus livros, Jorge explica o gosto do baiano – que isso ele foi e compreendeu como poucos -, valoriza preparos, ingredientes e modos à mesa. Páginas perfumadas por dendê, em grande parte, mas com cheiro de rua também; da rampa do Mercado, onde seus marinheiros, boêmios e vadios comiam feijoada, maniçoba e sarapatel; e de frutas das fazendas de cacau, das feiras, dos saveiros carregados de abacaxis, cajus e mangas.

Tristeza “é não ter gosto na boca”, diz Gabriela. E o autor não economiza apresentação dos sabores do acarajé, do vatapá, da moqueca de siri-mole, do bolo de puba ou da cocada. Acostumado à pujança do dendê, às seduções dos quitutes baianos e das cozinheiras; comer, nos livros do baiano, vira teoria, cena e pretexto para histórias.

Seus personagens não se alimentam apenas. Jorge – que tanto gostava de comer- dá prazer a eles a cada receita ou mordida. Por isso, constata o coronel Maneca Dantas depois de muito penar: “Se a gente não comer bem, o que é que vai fazer?”.

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