BLOG DO GUSMÃO

POBRE BOUBOLINA, ESTÁ UM CACO!

jamal-padilha-11Por Mohammad Jamal

Quando cheguei por aqui, ainda criança, enchia-me de espanto a barroca poesia arquitetônica e o bucolismo quase mítico que se esparramava por toda a cidade. Eu ficava extasiado! Tudo que eu via à minha volta me transmitia uma incrível sensação de êxtase. O mar com seu profundo azul lilás; as águas mornas intensamente salinas; as ruas; o casario em sua maioria ao estilo neoclássico europeu; suas calçadas limpas, sua pompa e circunstância, sua elegância! A gente daqui, em especial, das classes média e alta, era diferente daquela de onde vim! Pareciam e, eram de fato diferentes, porque se comportava com cordial refinamento e formalismo. Do ponto de vista da conduta social, a educação transparecia com mescla dos perfis parisiense e londrino. Havia, entretanto, não obstante a fleuma, uma implícita e consensual hierarquização entre as classes alta, média e a dos cidadãos que compunham a força de trabalho; todos conviviam pacífica e harmonicamente suas órbitas interdependentes entrelaçadas pelos interesses comuns de cada classe. 

A fixação de moradia em Ilhéus se deu aos poucos. Costumávamos veranear todos os anos lá no Pontal. Depois, as férias escolares de inverno também passaram a ser usufruídas em Ilhéus. Era uma festa quando nos preparávamos para vir pra Ilhéus. Aí fomos ficando; atrasando-nos para o retorno, até meu pai finalmente decidir fixar nossa residência definitivamente por aqui, para o agrado da nossa família.

Quando aqui cheguei, aos 12 anos de idade, Ilhéus me incutia uma sensação mítica de sonhos e poesias, algo que fazia vibrar extremamente prazerosas minhas emoções de criança. Ilhéus tinha a sua magia exclusiva; suas singularidades, seus talentos; tinha até seu perfume exclusivo e personalizado para cada hora do dia, explico. Na maré baixa Ilhéus exalava o cheiro do ninhal dos camarões; dos aratus; dos caranguejos e ostras, que emanava da lama dos seus manguezais pródigos de fertilidade.  Na maré alta, tínhamos o cheiro da vida, a maresia que nos indicava que o mar estava vivo, apinhado de plâncton, algas, peixes! À tardinha, para esperar a noite, Ilhéus se perfumava de especiarias; cravo, canela, chocolate, café e nos servia aquele cappuccino que nos fazia chegar ate à janela para senti-lo melhor. Ate hoje aquele perfume permanece na minha memória olfativa. Jamais o esquecerei!

Foi aqui que aprendi muitas coisas do tradicionalismo, cultura e costumes regionais que ate então desconhecia.  Que não se deve comer manga e em seguida beber leite; beber água fria após um café quente; banhar-se após as refeições; comer carne vermelha e peixe na mesma refeição; que as moças donzelas são – ou já foram – as mais perigosas. Foi aqui em Ilhéus que eu vim conhecer e estudar nos melhores colégios públicos do Brasil. Casei com uma ilheense; aqui nasceram meus três filhos, meus quatro netos e, aqui imaginava enterrar meus restos, mas parece que a influência do homem, predador do próprio homem, me fez optar por outra cidade onde os mortos, de fato, descansem em paz. Porque por aqui nem os sepultados escapam à sanha dos vândalos, dos desordeiros e da preguiça dos administradores públicos, regiamente pagos com nossos suados impostos extorquidos na tora, sem dó ou piedade, para o gáudio e usufruto dos políticos e seus asseclas, empossados. 

A Ilhéus da atualidade mudou muito! Quase não a reconhecemos mais, senão por alguns indícios geográficos como a baia do Pontal; o promontório do Morro do Pernambuco; a baia da Sapetinga; o Casarão do ex-prefeito no Outeiro de São Sebastião e a suntuosa Quinta habitacional do atual, lá no Jardim Savóia, usada na semana de dois dias passados em Ilhéus “a serviço do povo”. 

A nossa Ilhéus perdeu seu refinamento; sua clássica elegância; sua suntuosidade, seu aplomb. Parece-nos acometida pela maleita e pela verminose política que a infesta agudamente. Está amarelecida pela anemia; está opada; intumescida e balofa. Abdome dilatado como em ascite gigante; ao que se supõe, apinhada e parasitada por levas de centenas vermes de todas as siglas, subespécies e classificações biológicas. Ilhéus está tão fraca e debilitada a ponto de quase não conseguir manter-se de pé, respirar… Sobreviver. Está um caco! Expandiu-se descontroladamente para todos os lados; foi como se agonizasse numa filariose de elefantíase concomitante a outra pela “ferida brava” da leishmaniose. Agora a nossa Ilhéus nos faz relembra as vermelhas e suculentas maçãs Fraiburgo-SC! Mas àquelas maçãs caídas, murchas e podres por atacadas e consumidas pelas lagartas roscas; a “maçã” que agora jaz ao chão, imprestável para o consumo humano. Perdas. 

O Brasil mudou! Ah… Como mudou! Alguns dizem que para melhor, outros acham que para muito pior; e Ilhéus, coitada, ficou no bloco daqueles que opinam pelo péssimo ou, do pior, impossível! Coitadinha, nem se pode mirá-la ao espelho de outras cidades; eles se quebrariam ante o horror da sua decadência, da sua aparente sujidade e feiura induzidas. É uma “perua” envelhecida, enrugada, cheia de vilosidades, pele seca, manchas senis, cabelos desbotados pelo tempo, olhos lacrimosos, melancólicos, depressivos. No momento ela está sendo maliciosamente travestida pelos seus maquiadores. Eles insistem em esconder as sequelas da exploração abusiva lhe tem causado tanto mal; aplicam-lhe litros de botox sobre as rugas; espessas demãos de cremes faciais; delineadores, batons em cores fortes; cílios postiços; perfumes baratos e roupas de brechós, sobrepesada com bijuterias baratas das lojas de 1,99. Ilhéus e a imagem da degradação; do abandono e do envelhecimento precoce que resulta do abuso da exploração descontrolada. Com todo o respeito, prefiro substantiva-la como uma “pobre perua”: toda feericamente enfeitada com demãos de cal pó compacto, ainda se achando; não obstante o ridículo que tolamente ignora exibir feericamente. Coisa que, com os sentimentos despedaçados, nos faz compará-la a um personagem do escritor Níkos Kazantzákis, a saudosista, vetusta e romântica “Bouboulina“, em Zorba o Grego. Nem posso chamar Ilhéus shakespearianamente de minha Julieta porque, de fato, ela nunca foi verdadeiramente amada pelos homens que a possuíram politicamente. 

O Brasil Mudou! As tradições, a democracia, os hábitos, a civilidade, educação, elegância e circunstância são apenas coisas de antiquários; coleções de um passado remoto, em desuso. Agora se pode tudo, já não há regras, não há limites ou fronteiras, não há direitos a se evocar. Direitos tem quem político é! O resto? É só resto mesmo. 

Aqueles velhos costumes que aprendi quando aqui cheguei feneceram! Agora você pode comer virgens donzelas e beber água gelada em seguida. Comer carne vermelha junto com rosquinhas da merenda escolar; pode se candidatar quiçá, até tomar posse se eleitor for; mesmo tendo ainda pendentes nos varais da Justiça mais de vinte e dois processos judiciais por improbidade administrativa! Vamos lá minha gente… Alegria! Nosso irmão morreu no corredor do hospital do SUS, mas ainda assim, resta-nos o orgulho e ufanismo de termos Estádios de Futebol do 1º mundo, para assistirmos pela televisão a nossa Seleção Brasileira jogar o seu futebol! Um Brasil de todos, mas pra uns.

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Uma resposta

  1. verdade suas palavras reflete muito bem nossa cruel realidade pois um dia princesinha do sul agora a CRATERA DA BAHIA . volta ILHEUS por amor AO SEU POVO.

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