
Por Ruda Ricci / publicado no blog do autor.
Existe uma espécie de TOC analítico, um apelo didático em análises políticas, que é a comparação de traços de personalidades distintas. Análise política é um trabalho de alto risco e exige, além de muita informação, apuro teórico. Caso contrário, torna-se narração de jogo de futebol da Série D.
Na prática, a análise é complexa, mas a devolução tem que ser ágil e palatável. Paulo Freire, uma vez, me disse que intelectual é quem pensa difícil, mas fala fácil, para que o interlocutor possa interpelá-lo. Falar difícil para um interlocutor que não especialista na área é um sinal de insegurança e/ou autoritarismo.
Pois bem, o recurso da comparação entre personalidades políticas leva esta justificativa do atalho explicativo. Uma simplificação, de qualquer maneira. O cuidado que se deve ter é o mesmo que Weber teve quando explicou o que é um tipo ideal. Não é o real. Nem mesmo se encontra um tipo puro no mundo real. Mas, do ponto de vista analítico, trata-se de uma fonte para o leitor decompor a realidade.
Dito isto, quero refutar, com toda clareza, esta comparação de Marina com Collor. Trata-se de um recurso didático empregado pelo analista. Em vários casos, uma maldade incontida que resvala em caráter duvidoso. Mas, na maioria das postagens que li, tratava-se de uma mera comparação didática. Mesmo assim, equivocada.









Uma resposta
Também acho comparações simplificadoras muito complicadas, mas o que faz de Marina mais parecida com Collor não são suas características pessoais, a história de vida de Marina merece respeito, mas suas escolhas políticas. Ser candidata por um partido do qual pretende sair, atacando a política tradicional mas utilizando expedientes da mesma e se aliando a setores conservadores, com programa econômico conservador e ortodoxo, bradando ser a única portadora desse instrumento cabalístico “nova política” traz uma certa semelhança. Não creio que os principais riscos de um governo Marina são institucionais. Apesar das limitações de nossa democracia, avançamos muito para isso com uma candidata palatável ao Sistema Financeiro, grande detentor do Poder Econômico no país. Mas justamente seu programa econômico que agrada preferencialmente esses setores que podem causar um atraso econômico e social para o Brasil. Dizia, antes do lançamento do Programa de Governo de Marina, que tinha esperança que sua ascensão significaria o sepultamento dos tucanos e sua política econômica regressiva e o debate de temas avançados para o país. Não surpreendentemente, me enganei, e o Programa Econômico de Marina acaba sendo o Programa Econômico dos tucanos radicalizado à direita. Podemos estar perdendo uma grande oportunidade.