Por José Henrique Abobreira
Na véspera da eleição de prefeito e vereadores em Ilhéus,em outubro de 1996, tudo corria às mil maravilhas no nosso escritório político. As pesquisas eleitorais e o povo na rua apontavam para a nossa vitória, como realmente viria a acontecer. Tivemos 20 mil votos a mais que o candidato opositor. No meio da tarde recebemos a visita do coronel Moisés da PM, comandante policial designado para promover a segurança do pleito no interior baiano, que nos assegurou que tudo correria bem e dentro da ordem na eleição do dia seguinte. Me despedi de Jabes, nos desejando mútua sorte na empreitada eleitoral e saí rumo à localidade de Ponta da Tulha para uma reunião rápida com um grupo de lideranças, pois havia sinais no ar de alguma dissidência e para lá fui para acalmar os ânimos da turma local.
Encerrada a reunião, junto com Marlise, me apressei em ir para casa descansar para enfrentar a batalha do dia seguinte, quando Jabes e eu teríamos de percorrer diversos locais de votação na cidade e nos distritos, como reza a liturgia eleitoral.
Mal cheguei, recebi o telefonema do meu irmão caçula, Marco Abobreira, relatando o seguinte: ”Zé (toda a minha família me chama assim), aqui onde moro no Basílio passaram nesse instante algumas madamas bem vestidas e de salto alto, acompanhadas de muitas pessoas distribuindo umas senhas, de casa em casa, para entrega de uma cesta básica no comitê da coligação de Jabes e Abobreira amanhã dia da eleição e isso é estranho” disse ele. Prometi que iria averiguar junto ao pessoal da coordenação da campanha. O telefone tocou de novo. Dessa vez, era Jabes, candidato a prefeito, a me convidar para uma reunião de emergência pois havia um problema grave acontecendo.
Ao chegar de volta ao escritório, Jabes me relatou o problema que poderia inviabilizar o pleito eleitoral, pois, num jogo rasteiro, a campanha do concorrente a prefeito de Ilhéus , contratou inúmeras pessoas em outras cidades para distribuírem essas senha falsas, criminosamente distribuídas em todos os altos de Ilhéus. Eles vieram em ônibus fretados de uma companhia dizem que de um cunhado do candidato, provenientes de cidades vizinhas, Buerarema, Itajuípe, Barro Preto e periferia de Itabuna. Imaginem o tumulto que seria, essas pessoas portadoras da senha, na porta do nosso comitê a fim de receber a cesta básica no dia da eleição.
Só que eles não contavam com a nossa capacidade de reação, toda a coordenação e advogados da campanha foram mobilizados. Denunciamos o problema à Polícia Federal. Na entrada do Banco da Vitória, conseguimos barrar vários ônibus que traziam essas pessoas com a mesma finalidade. Os veículos eram parados e dada voz de prisão ao motorista e passageiros, com a polícia já apreendendo o farto material de senhas falsas, o que constituía crime eleitoral, e conduzindo os infratores e veículos para a delegacia de Polícia Federal.
E assim, quase amanhecemos o dia na delegacia acompanhando a oitiva dos infratores, mais de 80 pessoas presas em flagrante por crime eleitoral, defendidos no ato da prisão por um advogado candidato a vereador na época.
Ainda por medida de precaução, antes do início da votação, colocamos pessoas nas vizinhanças do comitê da nossa campanha para interceptar qualquer senha falsa que tivesse escapado à apreensão da polícia.
Felizmente, a situação ficou sob controle. A eleição transcorreu normalmente e demos uma “surra” memorável no adversário.









Respostas de 4
Gostei da expressão “surra”. Pelo menos ajuda a minorar a indignação.
Lembro como se tivesse ocorrido ontem. Abóbora está com a memória tinindo!
Muito interessante essa história, e contraditória também, primeiro seu irmão dizendo que as pessoas que estavam distribuindo as senhas estavam muito bem arrumadas, eram dondocas ricas, depois prenderam uma multidão em ônibus vindos de outras cidades (pobres), e todos por aqui sabem quem sempre teve vinculo com empresas de õnibus, quem sempre distribuiu cestas básicas, inclusive nessa mesma elição um candidato apadrinhado do vencedor do pleito distribuiu milhares de cestas básicas, caminhões, e foi eleito por conta disso. Quando o assunto é poder, em Ilhéus tem uma turma que o diabo perde de longe.
Ze Nazal publicarei mais assuntos a respeito dessas passagens pelo mar turbulento da política. Sinta-se a vontade para colaborar com aa informação sobre algum fato, vc. que é marujo de long time nesses mares por nós navegados.