Por José Henrique Abobreira
Em 1998 fui convidado, como representante da área de desenvolvimento econômico municipal, a participar de um encontro na sede do consulado espanhol em Salvador. Estava na Bahia uma missão comercial espanhola desejosa de conhecer algumas cidades litorâneas, com intuito de instalar uma base para navios de pesca industrial. Em anexo, funcionaria uma indústria de processamento de pescados enlatados, com previsão de geração de mais de 700 empregos diretos e milhares de empregos indiretos, em razão das atividades da frota de navios pesqueiros e a própria atividade pesqueira que absorveria mão de obra numerosa de pescadores nativos.
Os empresários pertenciam à empresa espanhola pesqueira CALVO PESCA, de Vigo, na Galícia, com intensas atividades pesqueiras e industriais na Europa, Marrocos, Chile e Argentina. Com a minha visão que me impulsionava a correr os 4 cantos do Brasil na busca incessante para atrair a instalação de empresas em Ilhéus, gerando com isso emprego e renda, para lá me dirigi rapidamente. Me incorporei à comitiva. Na sede do consulado, fui apresentado aos empresários, e rumamos em peregrinação (de dias) para contatar autoridades baianas.
Foram muitos os contatos: na Bahiapesca, na Governadoria do Estado da Bahia, Imigração, Receitas estadual e federal, enfim, o mundo da burocracia estatal. Nesse ínterim fui trabalhando os ânimos dos espanhóis e “largando a cantada” neles e no cônsul para imediatamente visitarmos a nossa querida Ilhéus. Queria mostrar-lhes o potencial da nossa terra. Aqui temos porto internacional, aeroporto nacional, universidade e colégios técnicos para formação educacional, rodovias que ligam aos dois principais troncos rodoviários do país (BR 101 e BR 116), comunicações, perspectivas de uma ZPE, um distrito industrial. Listei os vetores locais que permitiam a instalação de um investimento desse porte.
Nas minhas investidas, consegui agendar a sonhada visita. Nos desdobramos dentro do governo municipal para fazer uma bela recepção, digna e calorosa aos visitantes. Na minha cabeça rodava a ideia de quanto mais calorosa a recepção melhor isso influenciaria na hora de bater o martelo em favor da nossa Ilhéus. Não deu outra.
No dia aprazado, convidamos a comparecer à recepção dos estrangeiros, no aeroporto Jorge Amado, as autoridades representativas das Forças Armadas, Marinha, Exército e Aeronáutica, o comandante da PM e chefes diversos de órgãos públicos locais, além da presença do prefeito Jabes Ribeiro.
Do aeroporto seguimos para o Palácio Paranaguá, onde o prefeito colocou as boas vindas ao grupo e ordenou o hasteamento do pavilhão espanhol ao lado da bandeira nacional, na frente do Paranaguá. Naqueles dias o pavilhão espanhol tremulou balançado pela brisa marinha da Terra da Gabriela. Fizemos os contatos de praxe com os órgãos competentes para examinarem e autorizarem a instalação do projeto. Essa recepção calorosa colocou os espanhóis e o cônsul em êxtase. Para completar a hospitalidade calorosa, levei-os à noite ao SANCHOUPANÇA , de propriedade do patrício galego Secundino, no centro da cidade. Aí foi a gota limite para o transbordamento das emoções da boa acolhida em nossa terra do cacau. Foi uma carraspana homérica, os patrícios se encontrando e vivendo reminiscências da terra natal, além de apreciarem o desfile das belas Gabrielas no cento de Ilhéus.
De concreto, em torno do projeto, ficou acertado o seguinte: a preferência seria pela cidade de Ilhéus ou a capital Salvador, com ligeira vantagem para Ilhéus, pelo viés sentimental, pois moravam numa cidade do interior na Espanha. O governo do estado em parceria com o Ministério da Agricultura contratariam um navio de pesquisa para fazer uma varredura no litoral baiano, de Abrolhos , ao Sul, à divisa com Sergipe, ao norte.
Meses se passaram e um dia, finalmente, toca o telefone. Era o presidente da Bahia Pesca me comunicando que alguns dias depois aportaria Ilhéus um navio de pesquisa, dentro do programa REVIZEE, do governo federal, para avaliar o grau de piscosidade da Bahia em águas profundas, além da plataforma continental. Pediu que eu indicasse um representante do segmento da pesca em Ilhéus, para nos representar na expedição científica rumo às profundezas abissais do Atlântico.
Convidei Zé Neguinho, presidente da colônia de pescadores Z34, para fazer parte da tripulação do projeto REVIZEE. Para felicidade nossa, a pesquisa foi efetuada em todo o litoral do estado e ficou constatada uma média de captura de pescados por 199mts de espinhel na faixa de 8 peixes grandes(Meca, tubarão e atum), o dobro da média de piscosidade na Europa, que era de 3,7 pescados.
A partir desse resultado os espanhóis se animaram em fazer o investimento da pesca industrial na Bahia e, junto com Jabes Ribeiro e representantes da CALVO PESCA, a Bahia Pesca, representantes da Sea Star (eu havia encomendado à essa empresa de navegação marítima, que transporta o papel jornal de O GLOBO do Canadá para o Rio de Janeiro, um estudo de revitalização do Porto de Ilhéus), na governadoria do Estado, assinamos, com a chancela do governador César Borges, ato de protocolo visando a instalação da empresa em Ilhéus.
Logo depois saí do governo e perdi o acompanhamento desse importante projeto, pois no Brasil, muda o governo, muda tudo, não se dá uma continuidade.
PS: Para amenizar essa narrativa um tanto quanto enfadonha, a parte pitoresca do caso ficou por conta de Zé Neguinho ter “mordido a corda” para embarcar nessa viagem, alegando uma série de desculpas. Porém, como insisti muito, ele resolveu embarcar nessa barca.
A tripulação do navio constatou: o Z é Neguinho era pescador de boca da barra e não de alto mar. Enjoou muito na viagem, segundo relato dos marinheiros e fotos, onde Zé Neguinho aparece estendido no convés do navio de tantas náuseas com o balanço do mar. De pilhéria, contaram que quando içavam um tubarão de 300 kg para bordo o nosso Zé Neguinho corria para o outro lado do barco. Pescador de barbudos, xaréus e caçonetes da barra (perto de terra firme), correu ao ver um feroz tubarão de alto mar.
José Henrique Abobreira é auditor-fiscal da receita estadual, membro do PSB, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Ilhéus.










Respostas de 4
O por que, afinal de contas, a referida empresa não se instalou em Ilhéus?!
Leo respondi sua inquiriçaõ no parágrafo acima, transcreve:
Logo depois saí do governo e perdi o acompanhamento desse importante projeto, pois no Brasil, muda o governo, muda tudo, não se dá uma continuidade.
Leo mas o resultado de toda esse estudo e pesquisa devem estar arquivados na sede da Bahiapesca em Salvador, o problema é que em 2000 abandonei a vida pública, saindo da Prefeitura no final do mandato de vice-prefeito e aí não mais tomeiconhecimento do andamento do projeto. Mas vc. lembrou bem vamos pedir informações a Bahiapesca e lembrar ao nosso secretário de Pesca e Agricultura Vivas para tentar dar andamento nesse projeto importante paa Ilhéus. Maria do Socorro Mendonça presidenta do INI tem interesse também em ler esse estudo.
Preciso de parceria na área pesqueira com empresários Espanhóis.