Por José Henrique Abobreira
Viajamos juntos a Brasília, eu, o Florinho e o Mauro Góis. Representávamos a executiva ilheense do PARTIDO SOCIALISTA BRASILEIRO. A missão: participar do Congresso Nacional do PSB que formularia as posições do partido a respeito da nossa participação no pleito presidencial que se avizinhava. Levávamos na algibeira a proposta já esboçada em conversas aqui em Ilhéus: a necessidade política da formação de uma frente de esquerda para fazer o enfrentamento e que viesse a proporcionar abrigo a todos os progressistas. Era necessário promover a unidade progressista que fizesse frente ao bloco conservador que emergira do processo nacional constituinte, o famigerado centrão. A tendência seria esses segmentos se aliarem a um candidato conservador para travar o avanço da organização popular.
Meses antes, em janeiro de 1989, essa análise já tinha sido feita pelo deputado comunista Haroldo Lima, numa plenária na Câmara de Vereadores de Ilhéus. Suas considerações deixaram claro que no segundo turno das eleições presidenciais de 1989 seriam disputadas por forças dos extremos. O que viria se tornar realidade com a disputa entre Lula e Collor.
Imbuídos com bastante clareza desse pensamento e dessas posições, desembarcamos em Brasília e nos hospedamos no AP funcional do deputado Haroldo Lima. A pedido do saudoso amigo Napoleão Marques, ele nos recebeu com fidalguia na Câmara de Deputados. Dali partimos para conhecer o seu apartamento.
Na chegada, Haroldo pediu que não reparássemos a desarrumação do ambiente, pois ali ocorrera uma reunião política até altas horas da madrugada. ASSUNTO PRINCIPAL: a escolha do nome de Luís Inácio da Silva, o operário LULA, do Partido dos Trabalhadores, para encabeçar a chapa que disputaria a eleição presidencial daquele ano, em nome da unidade das esquerdas PT-PSB-PCDOB. Ele adiantou que escolheríamos no Congresso Nacional do PSB o candidato a vice na chapa que viria a ser intitulada a FRENTE BRASIL POPULAR. Nos disse Haroldo que dessa reunião participaram Lula, João Amazonas, Miguel Arraes, Brizola e outras lideranças partidárias. Brizola não topou e partiu para sua candidatura solo. Dessa engenharia política, um ano após, em 1990, na campanha de governadores de estado, a união das esquerdas pipocou em todos os estados da federação para enfrentar as forças conservadoras.
Praticamente fomos os primeiros personagens a tomar conhecimento da valorosa candidatura do Lula a presidente da república. Seria sua primeira tentativa.
No outro dia, já no Congresso do PSB, com a presença do Lula, a estratégia continuou a ganhar forma. Por votação escolhemos o filólogo Antonio Houaiss como companheiro de chapa do líder petista, na vice, representando o PSB. Por azar, no quarto do hotel, Houaiss escorregou e fraturou a bacia, tendo que ser substituído pelo senador José Paulo Bisol, do Rio Grande do Sul.
Muitos anos depois, Lula eleito presidente da República, o seu governo veio a provocar acertadamente a implantação de políticas públicas que, mesmo não sendo de esquerda e não seguindo os cânones de um governo que promovesse a quebra das desigualdades econômicas, com o estabelecimento de um imposto sobre fortunas, uma reforma tributária profunda e uma reforma política, promoveram o início de uma pequena redistribuição de renda junto aos setores mais fracos economicamente da sociedade. Isso garantiu uma política de recuperação do salário mínimo, que no governo FHC era de 100 dólares e hoje, com o PT, está na faixa dos 300 dólares.
O governo popular amenizou o problema da fome e da miséria com a inclusão produtiva de milhares de famílias, principalmente no semiárido nordestino, a região mais pobre do país.
Nos governos do PT também houve um incentivo fortíssimo à inclusão social, com proteção das minorias, índios, negros e quilombolas. Que fique claro aqui que não se trata de um governo de esquerda e sim de conciliação de classes. Os banqueiros nunca ganharam tanto, mas em compensação, o nosso povo sofrido está sendo incorporado a um padrão mínimo e decente de consumo com os programas de transferência de renda, e crescente recomposição do salário mínimo. Não falta comida na mesa do pobre.
Precisamos avançar mais. O PT, com Dilma reeleita, terá de promover um reaggiornamento, uma revisão de suas práticas éticas, bandeira com que foi eleito, mas que esqueceu ao longo do tempo, na visão do poder pelo poder. O PT tem tempo e inserção na sociedade para retomar essa bandeira. Aprofundar a reforma agrária no país e reformar a política, pois o atual modelo tem sido o pai e a mãe desses processos de caixa 2 e enriquecimento ilícito em todo o espectro partidário, do PT ao PSDB, PMDB, PP e os demais.
José Henrique Abobreira é auditor-fiscal da receita estadual, membro do PSB, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Ilhéus.









