Por José Henrique Abobreira
Pouca gente sabe que Ilhéus é o único município do Sul da Bahia que possui um zoneamento agroecológico. Esse mapeamento das condições de solo, clima e regime hídrico proporciona a indicação precisa das lavouras e cultivares adequados a cada microrregião do extenso território ilheense, além das áreas de conservação ambiental. Esse estudo foi possível pela parceria que a nossa Secretaria de Desenvolvimento Econômico, por mim dirigida, estabeleceu junto à CEPLAC.
O órgão da cacauicultura designou uma equipe de agrônomos encabeçada pelo Dr. Sandoval. Essa comissão teve como grande elaborador e sistematizador de todos os mapas e informações técnicas o nosso amigo técnico agrícola José Rezende Mendonça. O considero um cientista, haja visto a quantidade de estudos técnicos e publicações em revistas especializadas do Brasil e do mundo inteiro, tendo trabalhos expostos em Museus naturais no exterior, abordando questões de solos, florestas e ecologia. Rezende inclusive estudou a nossa reserva natural da Mata da Esperança, que circunda a zona urbana de Ilhéus (Rezende é modesto, mas, ainda pode prestar grandes serviços de consultoria nessa matéria, se instado for).
Realizamos esse zoneamento agroecológico pela necessidade de direcionar e impulsionar o desenvolvimento da extensa área rural do município, até induzindo o aumento de áreas plantadas na direção da diversificação agrícola, a exemplo do café conillon, coco da Bahia, banana, graviola e mandioca. Também visamos a revitalização do maciço do cacau mediante a clonagem e plantio de mudas resistentes à vassoura-de-bruxa. Após a conclusão do estudo, os bancos públicos de fomento à atividade agrícola em Ilhéus só liberavam dinheiro se o projeto acatasse as indicações do zoneamento agroecológico municipal.
Com essas medidas, houve um impulso muito grande nos projetos e no aumento da área plantada da diversificação agrícola de fruticultura. A produção de frutos aumentou e os preços diminuíram. O mago das finanças e ex-prefeito Darwich, nosso secretário de finanças, dizia orgulhoso: “vice-prefeito, parabéns, faço feira todas as semanas e tenho verificado que os produtos estão mais baratos. Credito isso em parte ao resultado das suas ações estimulando o homem do campo”. (Abro um parêntese para outra revelação do velho e honrado amigo Darwich. Ele admirava os meus discursos em comícios e solenidades públicas. Me intitulava “mitingueiro”, uma corruptela do meio publicitário de meeting, a arte de bem colocar as ideias para atingir o grande público).
Na verdade, essas ações, além do zoneamento agroecológico, eram lastreadas pelo avanço do programa de desenvolvimento econômico, elaborado ainda na campanha por pessoas da sociedade civil organizada, empresários comerciais, industriais e rurícolas. Por meses a fio sentaram à mesa e elaboraram um verdadeiro programa de governo, o qual eu segui à risca nas ações da secretaria de desenvolvimento. Programas da revitalização da cacauicultura, da diversificação agrícola, da revitalização da pesca e do fortalecimento do polo de informática. Nosso governo implantou projetos (e não foram poucos) em todo esse arcabouço de diretrizes econômicas .
No polo de informática, que encontramos no início do governo com seis empresas instaladas, ao cabo de quatro anos, deixamos quarenta e seis indústrias montadas ou em estágio de instalação. Na área da pesca, articulamos com os pescadores e suas representações um projeto de um milhão de dólares no BNB, liberados para a aquisição de cinquenta saveiros de pesca, uma fábrica de gelo e câmeras frigoríficas. Estão aí as embarcações até hoje incrementando o aumento da pesca no município. (Faz-se necessária nova articulação, desta vez direcionada à pesca industrial. Alô Vivas! Alô Bahia Pesca!).
Voltemos ao desenvolvimento da área rural. Fizemos o “meio de campo”, acertadamente, com os diversos órgãos incentivadores da agricultura, EBDA, CAR, BAHIAPESCA, CEPLAC, BANCO DO NORDESTE. Esses órgãos passaram a ter uma responsabilidade articulada na formulação dos projetos. Passamos a falar a mesma língua na elaboração de projetos de assistência técnica.
Assim, construímos, além do zoneamento agro-ecológico, um PLANO DE INVESTIMENTO MUNICIPAL (PIM), que serviria como orientador na formulação e execução de projetos de infraestrutura e da produção agrícola,com financiamento dos órgãos acima citados. Mediante discussão com assentados da reforma agrária e pequenos agricultores familiares, elencamos 28 projetos para tocarmos na medida em que conseguíamos viabilizar financiamentos. Cito abaixo alguns que foram efetivamente construídos graças a essa articulação institucional. Uma reforma agrária municipal, como chamávamos à época.
USINA DE LEITE DO SANTO ANTÔNIO, CASAS DE FARINHA-MINI-INDÚSTRIAS ELETRIFICADAS DE INEMA, SANTANA, JAPU, REPARTIMENTO,TANQUES, REDES DA LAGOA ENCANTADA, JANGADAS DE FIBRA MOTORIZADAS, LUZ NO CAMPO, ELETRICIDADE EM CENTENAS DE PEQUENAS PROPRIEDADES E ALDEIAS INDÍGENAS, AGROVILAS RESIDENCIAIS EM ASSENTAMENTOS DE REFORMA AGRÁRIA COM ESCOLAS DECENTES, ÁGUA, LUZ E ACESSOS DE RAMAL Á ÁREA DE CACAU, TELEFONES COMUNITÁRIOS NO CAMPO, TANQUES DE PISCICULTURA, ATRACADOUROS EM SAMBAITUBA E NA LAGOA ENCANTADA, PONTILHÃO DE ACESSO AO ASSENTAMENTO RIBEIRÃO BRANCO-MAROIM E ETC.
Assim como hoje, o Jabes enfrentou as restrições do CAUC, deixadas por governos relapsos, e só agora regularizou as 35 restrições que impediam a municipalidade de receber verbas e investimentos. Naquela época, tive que enfrentar os meus “CAUCS” na área rural, pois nos cadastros da CAR, que financiava cada projeto até o valor de cinquenta mil dólares, Ilhéus estava inadimplente. As verbas de convênios haviam sido liberadas mediante intervenção de um deputado que não teve o zelo de verificar se os recursos estavam sendo aplicados pelas comunidades. A maioria das obras não foi concluída. Só depois de muitas idas e vindas, com a ajuda do deputado Paulo Câmara, hoje secretário de Ciência e Tecnologia do governo Wagner, conseguimos tirar Ilhéus da lista de devedores. O dinheiro começou a chegar e pudemos concluir esse belo trabalho em favor do homem do campo.
Para motivar a turma da zona rural, com o apoio da CEPLAC, EBDA, UESC, BNB, BAHIAPESCA, promovíamos anualmente dois seminários agroindustriais, trazendo para debates e palestras especialistas do Brasil e até do exterior, a exemplo do Dr. Ballesteros, da Costa Rica, maior exportador de bananas das Américas. Fizemos seminários sobre cacau, café, coco, banana e outros, todos na compreensão de agroindústria, ou seja, produção e industrialização, agregando valor aos produtos. Hoje verifico, satisfeitíssimo, fruto desse esforço e incentivo sendo alcançado com a recente industrialização do nosso cacau, transformado em chocolate fino gourmet. Além disso, recebeu certificado de produto protetor da conservação da mata atlântica. Quando esteve aqui em 1987, a convite do município, Fernando Gabeira chamou o fruto dourado de Cacau Selo Verde.
PS- Quero aqui registrar, não por jactância, mas por achar interessante, que no ano de 2002, quando me deslocava para o vizinho estado de Sergipe (o meu filho Fred iria cursar a faculdade de publicidade em Aracaju, na UNIT) deparei-me com uma faixa de propaganda eleitoral do candidato ao governo J. Eduardo Dutra, na época senador por Sergipe. A faixa dizia: “Obrigado, senador Dutra, pela emenda parlamentar no valor de um milhão de reais em favor do povo de Sergipe”. Ao ler aquilo sorri, um pouco vaidoso, pois se um senador da República estava sendo festejado por colocar projetos daquele valor para um estado inteiro, o que dizer de um modesto vice-prefeito que pura e simplesmente para o seu município, destinou mais de DOIS MILHÕES DE DÓLARES EM PROJETOS IMPLANTADOS E EM PLENO FUNCIONAMENTO?
José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual, membro do PSB, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Ilhéus.








