
Por José Henrique Abobreira
Existe uma crise profunda no sistema de representação política nos moldes tradicionais, não só no Brasil, mas no mundo. Nos EUA e na maioria dos países ocidentais, o índice de confiança da população na instituição Congresso Nacional, que é o ícone dessa representação no mundo moderno e democrático, beira os 14% e já bateu anteriormente na casa dos 9%. Há uma crise de legitimidade no parlamento. A sociedade anseia por novas formas e instrumentos de governar e quer participar, sim. O risco é o vácuo que essa crise na representação provoca na política.
Estudiosos confirmam que há no Brasil, a partir das jornadas de junho, uma impaciência, traduzida na negação da política, instrumento menos imperfeito para gerar consensos. Além da falta de credibilidade e da salada partidária, uma governança que se estriba na coalizão de maioria confunde a cabeça do cidadão. Cito o exemplo do PMDB. Sua prática de arrancar nacos do poder, à custa de um oportunismo político nunca visto, junta a tudo isso um alto grau de fisiologismo na partilha do aparelho de estado e convive com as maiores incoerências. Basta olhar para a Bahia, onde, mesmo ao lado de Dilma, o PMDB se aliou ao DEM e pediu votos para o tucano Aécio Neves.
Não é à toa que uma parcela da população, minoritária e equivocadamente, está nas ruas pregando abertamente um golpe militar. É esse vácuo na representação política, realçado de maneira distorcida pela grande mídia (que está a perder o seu controle absoluto, pois já de há algum tempo descobriu que não mais derruba e nem elege presidentes), que instala um precedente perigoso na aposta em fazer o jogo político fora dos marcos da democracia.
A meninada que está nas ruas talvez não saiba que está brincando com fogo ao pedir intervenção militar. Não sabem e não lhe ensinaram a defender os valores absolutos da democracia. Não lhes disseram quão ruim foi para toda a nação perdermos as liberdades públicas com o fechamento político do país, com a quebra das salvaguardas constitucionais, com o AI 5, a noite escura e os anos de chumbo que advieram para a sociedade brasileira após a instalação do regime militar de 64, que durou vinte anos. As prisões injustas, o exílio, a tortura, os assassinatos (como o de Hezorg) e a intimidação como métodos de dissuasão política. Esses são exemplos dos crimes que feriram a ferro e fogo a memória nacional. A Presidenta Dilma que o diga. Ditadura Nunca Mais!
O PSDB, de maneira “leviana”, flerta com o golpismo. Aécio trai a memória do avô, o saudoso presidente Tancredo Neves, ao não condenar a estapafúrdia e antidemocrática posição do PSDB, que questionou o resultado da eleição dirigida pelo TSE.
O PSDB está a lembrar a antiga UDN golpista que, por não ganhar as eleições nas urnas, insuflou os quartéis, derrubou o estadista Getúlio Vargas e, dez anos depois, legitimou o golpe militar de 64, dando base para a ARENA, o partido de sustentação da ditadura. A HISTÓRIA SE REPETE COMO FARSA.
O exemplo mais claro dessa crise de representação política, do esgotamento do nosso sistema político e da deslegimitização da mediação institucional via congresso nacional aparece claramente na grande possibilidade de extinção do DEM, partido que tinha expressão nacional e ficou reduzido à expectativa da liderança de ACM Neto.
O Prefeito de Salvador saiu amplamente derrotado nas eleições da Bahia e cogita se transferir com armas e bagagem para o PMDB. Assim como o falecido avô, quer permanecer à sombra e no conforto da máquina do poder a nível nacional. Será a “pá de cal” no DEM. O partido está morto, só estão esperando a maneira mais rápida de enterrar o defunto.
O QUE FAZER? As urnas responderam, apontaram o caminho, o eleitorado falou, queremos preservar os avanços e melhorias obtidos, mas também queremos mudanças, queremos a melhoria de oferta dos serviços públicos, com maior qualidade no atendimento à saúde da população, na segurança pública, na educação. E mais, queremos uma participação mais efetiva nas decisões que nos dizem respeito diretamente. Por isso, o sistema político atual, viciado, não quer abrir mão dos privilégios e derrubou o decreto de Dilma que regulamentava a participação dos conselhos populares na formulação das políticas governamentais.
Os segmentos organizados têm que aproveitar esse recado político das urnas e promover mobilização e pressão intensas em direção à realização de uma verdadeira reforma política, que altere significadamente o modelo eleitoral atual, pai da corrupção nas entranhas do Estado, por intermédio do caixa 2 dos partidos políticos, todos eles (PT X PSDB e agregados) irrigados generosamente pelas empreiteiras que abocanham fatias enormes do orçamento nacional com obras públicas superfaturadas.
José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual e membro do PSB. Foi vereador e vice-prefeito de Ilhéus.









Respostas de 3
Abobreira, tenho um grande respeito por você, porém, no tocante ao resultado das eleições, o que ocorreu na verdade é que o PT só saiu vitorioso por conta dos votos acabestrados pelo Bolsa Família, um programa necessário, se fosse usado apropriadamente para tirar famílias da miséria, mas que hoje, nos grandes centros da pobreza se constitui num verdadeiro sistema de compra de votos à prazo para o PT; sistema esse que quase não foi suficiente para manter o grande “negociador” de votos no poder.
A propósito do texto acima, leiam essa matéria do Pimenta na Muqueca.
FUSÃO DO DEM COM PSDB É DETONADA POR ALELUIA, QUE ATACA ACM NETO
PostDateIcon 3/nov/2014 . 22:01
Aleluia diz que fusão é abertura para infiéis (Foto Bocão e Max Haack).
Aleluia diz que fusão é abertura para infiéis (Foto Bocão e Max Haack).
O presidente estadual do DEM, José Carlos Aleluia, aproveitou a conquista do mandato de deputado federal para mandar recado para ACM Neto, de quem era subordinado há poucos meses, antes de deixar a Secretaria Municipal de Urbanismo e Transporte. Não se sabe o que motivou o sempre beligerante, mas assim ele se pronunciou quanto à ideia de fusão do DEM com o PSDB ou outra legenda do campo de oposição ao governo federal:
– Fusão significa abertura de porta à infidelidade para quem quer ir pro governo. Não existe esta história de que os partidos mantém a totalidade de suas bancadas numa fusão. Para evitar essa evasão, no Congresso, há a ferramenta do ‘bloco parlamentar’ que permite a construção de alianças, preservando os partidos – disse Aleluia por meio da assessoria da presidência estadual do DEM.
Há poucos dias, ACM Neto disse que o DEM tende a sumir, tornar-se inexpressivo, por causa do seu tamanho diminuto e, por isso, sugeria a fusão com o PSDB, por exemplo. O partido tinha a expectativa de ganhar o poder na Bahia com Paulo Souto, mas acabou sofrendo a terceira derrota seguida para o PT de Jaques Wagner e Rui Costa, este eleito governador baiano em primeiro turno.
Nos últimos dias surgiram boatos de que ACM Neto estaria com o pé no PMDB, justamente para tornar-se mais próximo do governo e fazer deslanchar alguns dos seus projetos de governo.
Ainda há lucidez em Ilhéus!