Por José Henrique Abobreira/Coluna Folclore Político
Cabacinha era liderança forte na zona rural da microrregião de Santana, Santaninha e Serra das Trempes. O pequeno agricultor produzia farinha de mandioca para comercializar na feira do Malhado. O conheci nas lutas políticas no interior do município quando fui candidato a vereador pela primeira vez, nas eleições municipais de 1988, pela coligação que apoiou a candidatura de João Lyrio a prefeito.
Cabacinha promovia comícios que duravam um dia inteiro, com torneios de futebol e folguedos diversos. Ele liderava a recepção aos candidatos.
Após a campanha, já de volta às funções de subdelegado fazendário em Ilhéus (Zé Antonio era o delegado e fomos designados pelo então governador Waldir Pires), recebemos a visita de Cabacinha, esbaforido, querendo uma solução para a apreensão dos sacos de farinha que ele e companheiros traziam semanalmente do interior para o Malhado. Prepostos do posto fiscal apreenderam a mercadoria.
Havia um portaria de 1984, do secretário estadual da Fazenda à época, o auditor fiscal Benito Gama, que autorizava o transporte de até 10 sacos de cacau sem o acompanhamento da nota. Isso obrigava a empresa compradora a emitir o documento ao receber o produto. Consultamos a administração em Salvador quanto ao caso específico da farinha de mandioca e eles autorizaram a concessão do mesmo benefício dado aos cacauicultores.
Ajudei Cabacinha a organizar os produtores de farinha da região dele. Eles instituíram uma associação para encaminhar demandas semelhantes àquela aos diversos órgãos públicos, orientando a turma na obtenção de notas fiscais avulsas e etc.
Eis que anos depois chego junto à comitiva de Jabes no reduto de Cabacinha, na campanha municipal de 1996. O cenário estava pronto. Campo de futebol organizado para torneio, bodega vendendo a cervejinha gelada, estourar de fogos e a rapaziada pronta para assistir ao comício.
Começam as falações das lideranças. Cabacinha foi escalado para saudar os candidatos e o distinto público. Segurou o microfone e falou (em alto e bom som): “Se eu já era seguidor e admirador do prefeito Jabes Ribeiro, agora tenho mais motivo para isso, pois ele está acompanhado por homem poderoso, o Dr. Abobreira, homem que garante a palavra empenhada.”
Entusiasmado, Cabacinha emendou: “Senhoras e senhores, imaginem que o Dr. Abobreira mandou fechar um posto fiscal do estado só pra gente passar com a nossa farinha.”
Cochichei pra Jabes que estava ao meu lado: – Rapaz, se o governador souber uma história dessa, tô f… (risos).
Cabacinha, com sua ingenuidade, confundira uma medida legal e autorizativa da SEFAZ com uma liberalidade deste autor.
José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual e articulista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.










