
Por Sérgio Ricardo Ribeiro Lima
“Não há nada de mais útil que a água, mas ela não pode quase nada comprar; dificilmente teria bens com os quais trocá-la. Um diamante, pelo contrário, quase não tem nenhum valor quanto ao seu uso, mas se encontrará frequentemente uma grande quantidade de outros bens com o qual trocá-lo.”
Este texto está na obra magna de Adam Smith (conhecido como o pai da economia), Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, ou simplesmente, A Riqueza das Nações, publicada originalmente em 1776, na Inglaterra.
Smith lançou esse paradoxo para elucidar uma grande questão de sua obra relacionada à Teoria do Valor: afinal, o que é que determina o valor de todos os bens que atendem nossas necessidades? É o valor-de-uso, a utilidade, ou o valor-de-troca, as horas trabalhadas para se produzir uma mercadoria?
Smith respondeu com este paradoxo. Ou seja, um bem cuja utilidade é universal e imensamente superior a qualquer outro bem não ter quase nenhum valor em troca de outro bem não é um referencial adequado para determinar o valor. Então, apenas o trabalho pode ser a medida mais correta e concreta – porque mensurar utilidade e satisfação é muito subjetivo – para estipular o valor de todos os bens, cuja medida seria dada pelo tempo de trabalho necessário à produção dos mesmos.
Smith jamais pensou em a água se transformar em uma mercadoria (todo bem que tem valor-de-uso e valor-de-troca e, portanto, vendável), justamente pela sua abundância. Porquê, resumidamente falando e agredindo esta ciência – a Economia é a ciência da escassez. David Ricardo, o grande economista posterior à Smith, disse em sua obra que embora o valor dos bens seja determinado pelo trabalho, há bens cujo valor é influenciado pela sua escassez. E a água é um desses bens, que está transitando da abundância para escassez.
Passados dois séculos, três décadas e nove anos desde a publicação da obra de Smith, a água, em decorrência de sua universal utilidade – mais ainda à medida que o capitalismo foi se desenvolvendo e a demanda para produção e consumo aumentou exponencialmente – veio nesse intervalo de tempo passando por uma inversão: de abundante vem se tornando cada vez mais escassa. Ironicamente, foi um dos recursos mais importantes para o crescimento econômico, pela indústria e pela agricultura, que consomem juntas muito mais que a água potável para uso humano (ver quadro abaixo).
Consumo de água pela indústria e pela agropecuária – Revista Escola
Produto |
Quantidade |
Consumo de água |
Indústria |
||
Couro |
quilo |
16,6 mil |
Jeans |
unidade |
15 mil |
Camiseta algodão |
unidade |
3,7 mil |
Papel |
quilo |
324 l |
Aço |
quilo |
95 l |
Gasolina |
litro |
10 l |
Agropecuária |
||
Carne bovina |
quilo |
15 mil |
Carne de porco |
quilo |
4,9 mil |
Frango |
quilo |
3,5 mil |
Ovo |
unidade |
200 l |
Hambúrguer |
unidade |
2,4 mil |
Arroz |
quilo |
1,9 mil |
Soja |
quilo |
1,65 mil |
Açúcar |
quilo |
1,5 mil |
Cevada |
quilo |
1,3 mil |
Trigo |
quilo |
1,3 mil |
Leite |
litro |
1 mil |
Café |
litro |
1 mil |
Suco de maçã |
litro |
960 l |
Milho |
quilo |
900 l |
Vinho |
litro |
900 l |
Batata |
quilo |
500 l |
Maçã |
unidade |
70 l |









