Por José Henrique Abobreira/Coluna Folclore político
Muitos o conheceram de perto e o apresento agora àqueles que não tiveram a ventura de conhecê-lo. Adival, meu colega fazendário conhecido como Ferreira Rico pela extravagância e generosidade de seus atos. Perto dele ninguém pagava a conta do bar ou restaurante. Na sua casa, quando convidava um ou dois colegas para o café da manhã, era um exagero de acepipes. A mesa parecia o buffet de um grande hotel tal a fartura de aipim, banana da terra, cuscuz, tortas e bolos. Uma infinidade de itens gastronômicos.
Na repartição entrou numa pinimba com um chefe recém-chegado e ficou relegado numa mesinha vendendo selos. Mas se vingou direitinho mostrando a essa autoridade que ele também tinha amizades influentes, não era cachorro sem dono.
O governador ACM se hospedou no Britania Hotel, em frente à repartição fazendária à época, hoje Casa Jorge Amado. Ferreira aguardou na porta a chegada do chefe e quando este apontou na esquina do Itaú, rapidamente atravessou a rua e sapecou um abraço no governador. ACM conversava numa roda com correligionários na porta do hotel e reconheceu Adival – chamou pelo nome. Pronto: o chefe viu a e cena e nunca mais destratou o subordinado.
Passou o tempo, quase dez anos, e o professor Waldir Pires assume o governo estadual com a proposta do novo, de um governo democrático e popular, uma mudança de métodos, evitando o autoritarismo em que o carlismo tinha mergulhado a Bahia. O efeito que o abraço de ACM produziu na consciência do chefe de repartição era um sintoma desse jeito de fazer política.
A mudança proposta por Waldir influenciou fortemente o fisco baiano, que começou a aproveitar a nova geração de servidores concursados, com uma mentalidade mais aberta e preparo técnico maior. Aqui em Ilhéus foi nomeado como Delegado Fiscal o colega José Antonio Souza, que convidou-me para subdelegado e chamou Ferreira para supervisar a fiscalização no embarque de mercadorias no Porto do Malhado e entorno, aí compreendidas as áreas do porto antigo com o desembarque de pescados. Como já conhecia ímpeto de Ferreira, Antonio me avisou: o momento é outro e posturas arbitrárias devem ser evitadas, o imposto deve ser cobrado sem que o contribuinte seja desrespeitado.
Tudo combinado, Ferreira caiu no campo e teve um desempenho digno de elogios no cumprimento das tarefas fiscais. Precisamos mediar um ou outro exagero (o supervisor se acostumou aos poucos com as mudanças). Brilhou na intercepção de um grande contrabando de madeira de lei nos porões de um navio estrangeiro, descobriu uma partida de cacau para o exterior sem a devida emissão da guia do ICMS, foi na empresa e trouxe o agente para pagar o devido na repartição incontinenti, enfim era temido pelos sonegadores contumazes.
Numa manhã estávamos no gabinete de Zé Antonio e recebemos uma denúncia: um navio lagosteiro estaria desembarcando clandestinamente uma carga de pescados que seriam levadas por carretas para o Ceará. Às pressas me dirigi para a ponte do gás, na Sapetinga, acompanhado de Ferreira.
A realmente denúncia era verdadeira. Um navio estava atracado na ponte. Nos identificamos para o comandante e exigimos a vistoria nas câmaras frigoríficas para a pesagem das lagostas e a devida cobrança do ICMS. O comandante se negou a nos dar acesso aos porões. Eis o impasse. Raciocinei rápido: de nada adiantava o soldado PM que nos acompanhava, o problema era no mar e, portanto, da competência da Marinha.
Solicitei a Ferreira que fosse à capitania dos portos e pedisse o envio de um preposto da Marinha para resolvermos o problema. Esqueci que meu amigo era exagerado, risos. Ele despencou para a capitania e contou uma história com tintas mais fortes do que o acontecido.
Resultado? Vislumbrei do convés do barco uns três jipões entupidos de fuzileiros navais. Estacionaram na ponte de atracação. Pensei: esse Ferreira não toma jeito, exagerado que só ele!
O comandante da embarcação afrouxou quando viu aquele mundo de soldados armados e abriu os porões e assim pudemos cumprir o objetivo da blitz. Pesamos as lagostas e autuamos a empresa com o imposto devido e a multa correspondente.
Fomos bebericar no Vesúvio para comemorar o êxito da missão. Ferreira se virou pra mim e perguntou: gostou do aparato militar chefia? Disse para ele não cometer outro exagero como aquele, pois ao avistar o comboio pensei que tinha estourado um golpe armado em Ilhéus e, brincando, arrematei que quase me atirei ao mar. O trauma de 64 ainda era forte na esquerda e gato escaldado tem medo de água fria. As risadas ecoaram em toda a praça da Catedral de São Sebastião.
José Henrique Abobreira é fiscal da receita e colunista do Blog do Gusmão. Foi vereador e vice-prefeito de Ilhéus.
*Ajude o blog a encontrar uma fotografia de Edival Ferreira (contato: [email protected] ou (73) 8827 0961 – WhatsApp).











Respostas de 2
Bom texto!
Parabéns pela escrita !