
Por Mohammad Jamal
Oi querida! Meu amor, minha paixão! Eis que estou aqui de novo postado aos teus pés; não com aquela paixão avassaladora, entre beijos e abraços apertados do arrebatamento que nos unia àquela época de fulgor e alegria. Agora venho cercado de ternura. Não aquela ternura com que nos acercamos das crianças, mas daquela com que devemos permutar com alguém fragilizada, depressiva, maltratada… Gravemente enferma. Nada de beijos e abraços sôfregos; vamos conter nossa paixão ao simbolismo poético do amor platônico. Beijo-te as mãos com extrema ternura, olhos marejados e o coração despedaçado pela consternação ao vê-la tão degradada agonizando, quase uma morta-viva!
Vendo-a assim, tão depredada, mas ainda ostentando corajosamente sua dignidade; faz-me lembrar as mulheres de Atenas, seus arrebatamentos apaixonados, alheios à boa fé, às desconfianças evidentes, sem resguardos ou precauções, cegas às evidências iminentes das traições embaladas nos engodos de falsas promessas. Suas entregas e rendições, sua boa fé, sua boa índole, suas vulnerabilidades ao amor extemporâneo a homens imerecidos, infiéis, bígamos, boêmios de outros prazeres além de ti somente, como cerne dos teus calvários quadrienais. Brota-me lágrimas ao vê-la assim tão acabada, como se os turcos otomanos a houvessem invadido e saqueado. Você está um caco e nada posso fazer por ti! Não há como deseleger um elegido.
A cada ano que passa você transparece mais boba e vulnerável às conversas fiadas e papos de gaveta, carcomidos e empoeirados argumentos de quem só quer ”ficar” com você, isento vínculos estáveis, sem compromissos, sem ônus, mas com o lucro que degustam da grandeza e dos seus dotes. De resto fica o caos senescente da velhice precoce, degradação e ruína; quê mais? Você está, perdoe-me, um entulho só, o avesso do que já foi uma linda princesa-cidade. E todo isso porque você não se atenta aos detalhes e às antologias que são pregressas dos homens que te assediam e te conquistam com mínimos esforços. Maltrapilhos e andarilhos esquecidos das tuas memórias, porque sequer fizeram parte da tua história. Eles só passaram por aqui, saciaram a sede em ti e seguiram em frente, embora um ou outro tenha retornado para obrar mal sobre ti, em tua boa fé de uma quase mãe viúva.
As tuas estórias, aventuras e desventuras contemporâneas têm sido invariavelmente pontuadas por grandes e traumáticas decepções baldadas no malogro e frustrações cantadas em promessas aos teus anseios e anelos. Quimeras políticas diáfanas como almofadas de nuvens… Apenas frustres e dissabores! Lembras-se do teu mais recente caso? “Eu te conheço!” – “Sei das tuas carências, dos teus sonhos, das tuas dores, dos teus problemas supostamente insolúveis, das tuas metas e futuro.” – “Ninguém melhor que eu poderá fazer-te mais feliz e consolidar em realidade tudo aquilo que pretendes.” – “Eu cuidarei de ti melhor que ninguém!”. E teus “prinssipes”, de duvidosa autenticidade, todos súditos bastardos se dizendo herdeiros do Reino da Política, não eram encantados e tampouco poderosos ou sinceros a ponto de conceder-te mínimo alento, vês? Tuas ruas estão que nem as estradas de Kandahar; você cheira e vaza como os esgotos de Varanasi; sua saúde, sua educação, seu asseio, sua prosperidade beiram ao retrato vivo de Cabul!
E agora, o que te espera senão mais e mais sofrimentos e decepções quando “seu homem” promete de pés juntos e olhar fixo no futuro quadriênio político, concretizar tudo que deixou de fazer nos três primeiros anos da sua “união”? Uma “união” político-conjugal em comunhão de bens, transcorridos nas amargas centúrias do Inferno de Dante; mas mantido à sombra da promessa de trazê-la para as centúrias do “céu” de leite e mel! Que lindo… Tão diáfano!
A nossa “catarse” nesse ponto toma conotações contextuais de uma poesia sem lirismo; impregnada do construtivismo trágico em que se reveste teu aniversário: a duplicação da rodovia Ilhéus-Itabuna não veio; o porto Sul intermodal não veio; a ponte não veio e, não veio a saúde, e não veio a melhoria na educação, no saneamento, nas ruas esburacadas, na iluminação precária, no transporte público caríssimo, no IPTU, mas veio a utopia e tudo acabou – como o disse Manoel Bandeira – “E veio a utopia e tudo acabou!” Ilhéus está arrasada, com meias rasgadas, uma fome danada, e sem solução. Nessa altura, só nos resta colocar na vitrola um tango do Gardel, sorver um trago de absinto e recitar o amargor da frustração e revolta do Augusto dos Anjos. A utopia morreu por falência múltipla das esperanças, que lástima.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Feliz aniversário, amada Ilhéus, se puderes mimetizar o ser feliz em tal situação.
Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.










Respostas de 2
Gosto demais das suas crônicas porque são carregadas de emoção tem o pleno domínio das palavras e são escritas sempre na primeira pessoa! Com personalidade. O plural de modéstia junto ao tom sapiente e professoral de alguns jornalista me deixa enjoada.
Adorei esta Oi Querida, coitadinha mesmo! Bjs.
Um retrato fiel da nossa quase finada Ilhéus pintado com muita arte e cultura. E agora então depois desse aguaceiro com a nossa cidade coberta pelo lixo quem não souber nadar morre afogado não é Jabes.