BLOG DO GUSMÃO

OS MONUMENTOS DA INIQUIDADE E OS MUROS DE PAPEL

Elisabeth ZorgetzPor Elizabeth Zorgetz

Vivemos tempos do mínimo constrangimento. Pouca coisa ainda nos afeta de verdade, nos tira o chão sob os pés. O que ainda nos faz corar? Há pouca vergonha para envergonhar-se até sobre nossa crença do que é vexaminoso. Faz parte da tendência moderna da transgressão confessa, que não ocorre do modo mais arrojado que sugere. É corriqueiro, quando não louvado, sonegar, violentar, agredir, trapacear, subtrair. Não é a ocorrência que surpreende, mas sua admissão moral cotidiana, sua permissividade, passividade. A paz no horror. Os males vem a justificar a manutenção de formas de dominação e de velhas estruturas, mesmo que desafiem o estado de direito hipertrofiado, no campo ideal.

Odeio citá-la, mas a pós-modernidade, no vórtice de sua relativização, teve muito a contribuir à imensa confusão de conjecturas, pensares, ações e reações deste mundo. Acrescentou tão pouco, fora do aterro globalizado. Nos conduz, com muita leveza, a se apropriar de superfícies, atirando as responsabilidades à abissal profundidade dos significados. Isso me assusta? Claro que sim. Há uma correnteza invisível nos arrastando ao mar aberto. E ao mar e às marés, todo respeito e temor. Em Ilhéus, desde a semana passada, foi instalado o nosso próprio muro da vergonha. Nas palavras da própria ação, “o movimento popular Vem Pra Rua Ilhéus, expôs o Muro da Vergonha, no calçadão da Marquês de Paranaguá,onde aparece os posicionamentos dos parlamentares da Bahia, sobre o Impeachment da Presidente Dilma”. Houve um muro da vergonha, uma vez. Mas também houveram outros, semelhantes. Poderíamos falar sobre o muro que incrementa a fronteira mexicana, o muro da Cisjordânia, o muro-cemitério do Mediterrâneo, que ceifa tantas vidas refugiadas. E por que não os muros cariocas, entre o céu e o inferno da segregação socioespacial? Há colossais muros se pronunciando sobre tantos corpos, tantas diferenças, tantos amores. Por que será que há muros tão altissonantes e muros tão calados? Será por causa dos muros do burburinho, que as potências da comunicação constroem todos os dias? Por acaso não reforçamos, com muita crença e energia em desperdício, poderosos projetos dos quais somos completamente alheios? E somamos à balbúrdia de saberes em serviço de tão poucos?

É interessante perceber como são erguidos os muros da vergonha, para as organizações e organismos políticos favoráveis ao processo de Impeachment. O mais ressoante é a exposição e execração. Como o resgate do termo faz alusão histórica, podemos nos permitir a dúvida sobre o que é uma estratégia deformada ou apenas mais um engano. O muro da vergonha adquiriu rapidamente este significado a partir de uma série de iniciativas políticas e de movimentação coordenada pelo fim da Guerra Fria. Seu codinome só expressa significado se pensado sobre sua queda. Pessoas arrancavam o concreto com as unhas, quando se iniciou sua demolição. Seu declínio definia seu valor. Quando pensamos no muro da vergonha como exposição, tomamos para a análise amigos bem próximos do totalitarismo, como o nazi-fascismo, que desnudou e massacrou famílias inteiras, submetendo-as a várias humilhações, começando por homens e mulheres em cargos públicos; ou também a variação moderna jihadista, que arrasta os indivíduos pelos cabelos à tortura por seus modos de vida e posicionamentos, em sua lógica particular de disputa pelo poder.

Mas não estamos mais falando de um muro a derrubar, de uma fronteira a se romper, de um sistema para transformar. Estamos falando de execração pública a partir da negação do contraditório. Não transmite a informação com imparcialidade, mas condiciona opinião e viola a diversidade. Exagero? Duas vezes passei pela frente do monumento da iniquidade e não pude evitar um meneio, uma expressão de incredulidade. Pessoas me lançaram olhares punitivos e um indivíduo até começou a gritar suas determinações não solicitadas. Que sorte não saberem o que realmente penso. De forma muito sintética, vivemos uma crise aguda sobre a legitimidade da nossa jovem democracia, com um longo rastro de corrupção sistêmica sobre a maior parte daqueles que compuseram os cenários político-administrativos até então. Sofremos de uma bipolaridade destrutiva enquanto componentes de um processo democrático. Não serão as mesmas pessoas com ojeriza a políticos com mandato que buscarão, ávidas, se beneficiar das distorções eleitorais ou, por outro lado, que se negam a fazer a crítica sobre a corrupção no serviço público e privado?

Como podemos envergonhar alguém por fazer ponderações sobre tão séria situação como a retirada de alguém eleito a partir de um dispositivo arbitrário? Como podemos não nos preocupar que indivíduos em tomada de decisão precisem ser execrados para fortalecer a polarização de um movimento? Existe dúvida, existem diversos sacrifícios para a construção de nossa história e garantia de direitos, existe o absurdo da condução de um impedimento num espaço e comando totalmente enredado à corrupção, existem os movimentos populares de fato em situação de vulnerabilidade, e coexiste a tudo isso uma chamada de boa parte da sociedade para a manutenção de privilégios, sem qualquer gesto sobre a transformação do cotidiano brasileiro para além da palavra oca. Para quem pondera, é ainda mais dramático perceber como o projeto instalado se recusa a fazer esforços pelo rompimento com aqueles que articulam a usurpação. Como se desacreditou nos movimentos sociais, na luta popular, na tomada das ruas e dos espaços. Como ainda se negocia, até as cuecas. Ainda assim, o farol de muitos ainda é a construção democrática, seu bojo de avanços e o campo simbólico que povoa o nosso imaginário enquanto sociedade. É essa a fundação dos nossos sonhos, alguns ao alcance dos dedos e outros tão ambiciosos aos nossos próprios comportamentos. Não podemos confiar a matéria de nossas casas à fundações de ventania. Quanto mais aos muros de papel.

Elisabeth Zorgetz é membro do Núcleo de História Econômica da Dependência Latinoamericana, militante do Partido Socialista Brasileiro e autora do livro “O Sétimo Rio”.

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Respostas de 5

  1. Artigo muito longo e dificil de entender, parece uma pessoa muito culta, só que não entendo como com tanta cultura, venha aceitar uma quadrilha formada nos atuais governos do PT, onde vemos uma Petrobrás quebrada, onde o desemprego está a passos largos, a economia jogada no lixo, a segurança falida, a educação jogada as traças e a saúde coitado do brasileiro que ficar doente ou morre ou dá sorte em ir a farmacia e o farmaceitico receitar um remédio pois medico não atendem, os brasileiros ja não aguentam mais de tanta mentira, suas convicções partidarias deveriam ser usadas para o bem dos brasileiros.é uma lastima.

  2. Essa menina parece filha do professor Astromar, ela escreve textos tão complexos, que teríamos que ler com um dicionário ao lado, não se faz entender .

  3. Não menosprezo a inteligência de ninguém, quanto mais do meu povo ilheense. Boa sorte com o dicionário.

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