BLOG DO GUSMÃO

OPRESSÃO DE GÊNERO: SURGE NA HISTÓRIA, FINDA NA HISTÓRIA

Elisabeth ZorgetzPor Elisabeth Zorgetz

Não poucas vezes me coloquei em ponderação sobre a necessidade da luta por mulheres, sobre mulheres. Não poucas vezes li e ouvi que consistia num movimento sectarista. Não poucas ocasiões me deparei com questões sobre a transformação ou revolução sociais e materiais e elas pediram integridade. Silêncio. Certamente estas palavras também permanecerão no silêncio de diversos mundos. E foi também por meio de outro silêncio que emergi às necessidades e urgências do meu mundo. Do nosso mundo. 

 Quando as últimas linhas de ônibus deixam seus passageiros no centro da cidade, as ruas estão quase quietas. Quando se atravessa o comércio de portas fechadas para alcançar o outro lado da cidade, não há qualquer barulho, exceto o farfalhar de algum cão de rua no lixo que se amontoa nas calçadas. Neste silente caminhar, o medo é gritante. É um ruído pavoroso. Há um mundo de predadores ao redor, e somos a gazela solitária no campo aberto. Os olhos se movem em todas as direções, andamos em diagonal para prevenir um ataque por trás. Tossimos alto para despertar outros sons. Os pés queimam no célere trajeto. Qualquer criatura bestial pode estar à espreita. Uma amiga foi puxada em plena luz do dia para dentro de uma lotação e sofreu um estupro coletivo. Quantas de nós. Pobres animais lutando pela sobrevivência, um dia de cada vez. Não há lugar seguro nesta selva humana. O efeito sensorial é muito latente, mas servirá ao silêncio e ao medo ou então nos dotará de força para a libertação. É hora é compartilhar essa força onde ela não brota.  

É comum encontrar referências a “patriarcado” e às “relações patriarcais” em escritos ou documentos feministas. O patriarcado é muitas vezes colocado para mostrar como a opressão de gênero e as desigualdades não são ocorrências excepcionais. Muito ao contrário, são questões que atravessam toda a sociedade, e são fundamentalmente reproduzidas através de mecanismos que não podem ser explicados num grau individual. As reações de algumas pessoas revelam uma profunda negação de seu significado e exercício. No entanto, as coisas se tornam um pouco complexas se quisermos ser mais precisas sobre o que exatamente se entende por sistema patriarcal. E ainda mais complexas quando começamos a perguntar sobre a relação precisa entre o patriarcado e o capitalismo. 

Por um breve período, de 1970 até meados dos anos 1980, a questão da relação estrutural entre o patriarcado e o capitalismo foi tema de um acalorado debate entre os teóricos e partidários das correntes materialistas, bem como para as feministas marxistas. As questões fundamentais que foram colocadas giravam em torno de dois eixos: 1) é o patriarcado um sistema autônomo em relação ao capitalismo? 2) é correto usar o termo “patriarcado” para designar a opressão e desigualdade de gênero? 

Embora tenha se produzido trabalhos muito interessantes, este debate foi ficando gradualmente fora de moda. Isso ocorreu junto à retirada das críticas ao capitalismo, ao passo que outras correntes de pensamento feminista afirmaram-se na pós-modernidade. Um amigo compartilhou comigo as mesmas apreensões – talvez ainda mais graves – sobre o movimento lgbtt. Estes pensamentos muitas vezes não iam além do horizonte liberal, essencializavam as relações entre homens e mulheres e historicizavam com engessamento as relações de gênero, evitando perguntas sobre capitalismo e classe. Com justiça, foram agregadas questões importantes para a polêmica da desconstrução de gênero. Claro que sair de moda não significa desaparecer. Na última década, teorias feministas têm continuado a trabalhar sobre estas questões, correndo o risco de parecer apenas vestígios de um passado tedioso. E estavam corretas: durante as crises econômicas e sociais, se escancaram as relações estruturais entre a opressão de gênero e o capitalismo. Atualmente, também trabalho nesta corrente sobre a formação do exército de reserva e a superexploração entre as trabalhadoras de Ilhéus. 

Ao longo dos últimos anos, fenômenos têm sido observados, tais como a feminização do trabalho, o impacto das políticas neoliberais sobre as condições de vida e de trabalho das mulheres, a intersecção de gênero, raça e classe, e as relações entre as diferentes construções de identidade sexual e tratos capitalistas de acumulação. Podemos questionar a ideia de que a opressão de gênero é um fato trans-histórico, que deve ser revista à luz da antropologia contemporânea. Na verdade, não só a opressão das mulheres nem sempre existiu, como não existia em várias sociedades sem classes, onde a opressão de gênero só foi introduzida com o colonialismo. Para não criar um mal entendido, entenda-se classe também por estrato. Para se ter uma compreensão melhor da ligação entre a relação de classe e as relações de poder entre os gêneros, podemos tomar o exemplo da escravidão. No livro “Mulheres, raça e classe”, Angela Davis destaca a forma como a destruição da família e de todas as relações de parentesco entre os escravos africanos, bem como o próprio trabalho escravo, deu origem a uma transgressão substancial das relações de poder e gênero entre escravos. Isso não significa que as escravas não foram submetidas a uma forma específica de opressão como mulheres, pelo contrário: elas sofreram severamente, mas nas mãos dos proprietários brancos. Em outras palavras, a persistência e articulação das relações de gênero estão ligadas de forma complexa às condições sociais, às relações de classe e às relações de produção e reprodução. Uma visão abstrata e trans-histórica da opressão das mulheres não permite essa compreensão, e portanto, torna o movimento inerte sobre a transformação que propõe.  

Falar do capitalismo como se fosse separável da exploração racista, da violência de gênero e de uma gama de opressões que enfrentamos neste mundo confina a luta contra tudo isso à esfera da cultura, da consciência e privilégio individual. A forma atual de dominação na política brasileira, capitaneada por Eduardo Cunha e incentivada por suas diversas réplicas em cada recanto do país, apesar da generalização de políticas de promoção cultural, de gênero e inclusão sexual, significa o fuzilamento público dos direitos das mulheres e do povo negro, para começar. Sem atacar a infraestrutura material que aglomera o poder nas mãos de alguns, a equalização e efetivação dos direitos e a abolição dessas opressões baseadas em identidades só será uma fantasia liberal.  

Vou reafirmar que o caminho socialista –  a socialização dos meios de produção – é o  único caminho alternativo para deter o nosso desmantelar enquanto humanidade, para pôr fim à fome, à doença, alienação, guerra e catástrofe ecológica. Vou reafirmar o sonho do socialismo que inspira os trabalhadores, as mulheres, os oprimidos e os progressistas de todo o mundo ao longo dos últimos dois séculos. O socialismo não é destino utópico. É uma necessidade, tal como é respirar ar puro, beber água limpa e comer alimentos saudáveis. É uma necessidade, sobre nós mulheres, para deixar de uma vez por todas a base de predação dos homens na sociedade, em tantos níveis. Estou disposta a defender essa transformação em Ilhéus e em qualquer outro lugar.  Não hesitarei nunca mais. Vamos em frente. 

Elisabeth Zorgetz Loureiro é secretária de mulheres do Partido Socialista Brasileiro em Ilhéus e colaboradora no Núcleo de História da Dependência Econômica na América Latina (HEDLA).  

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