Por Mário Magalhães/publicado no blog do autor
Escritor dublê de goleiro ou goleiro dublê de escritor, o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) assinalou, em tradução livre: ”O que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do ser humano eu devo ao futebol”.
Cinquenta e seis anos depois da morte do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sua lição permanece. Poucas vezes foi tão eloquente como na terça-feira (29), na morte de 71 passageiros e tripulantes de um Avro que caiu na Colômbia. Entre eles, quase todo o time da Chapecoense finalista da Copa Sul-Americana e duas dezenas de jornalistas que cobririam em Medellín o jogo de ida da decisão.
A dor pungente e a solidariedade em todo o planeta mostraram a face mais generosa da humanidade. Embora às vezes divida, quase sempre o futebol une, na paixão e na comoção. Em estádios, treinos, na privacidade doméstica, a desgraça comoveu.
A repetição de jogadas de partidas recentes da Chape ensinou sobre perseverança, resistência até o instante derradeiro, superação na adversidade. O sonho alimentado por defesas milagrosas do goleiro _como Camus_ Danilo. Isso mesmo: quem disse que milagre não existe?
A iniciativa do Club Atlético Nacional de propor a entrega do título à Chape é uma das atitudes mais emocionantes da história do futebol, própria de campeões. Por isso, torço para que os dois clubes repartam o caneco.
Do infortúnio florescem atos dignos até na lama. Cartolas propuseram medidas honradas de preservação do clube catarinense na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Uma coalização de afetos. Por exemplo, com o empréstimo de boleiros para recompor o elenco.
Nada disso mitiga a dor, mas aduba a esperança num tempo de tanta desesperança.










