BLOG DO GUSMÃO

O PITO DA VIÚVA DE MARIGHELLA NO EX-MINISTRO JOBIM

Clara Charf e Nelson Jobim.
Clara Charf e Nelson Jobim.

Por José Henrique Abobreira

abobreira artigoCorria o ano de 1995. O grupo Tortura Nunca Mais se articulava para solicitar ao presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) o envio ao Congresso Nacional do projeto de lei sobre os crimes praticados pela ditadura militar (1964-1985). O objetivo do grupo era fazer com que o Estado brasileiro admitisse a culpa por torturar e matar presos políticos.

Familiares das vítimas da ditadura, maioria no grupo Tortura Nunca Mais, faziam peregrinações a Brasília. Nessa época, a família do guerrilheiro Rosalino Souza, morto na guerrilha do Araguaia, pediu-me que a representasse nas viagens à capital. Eu exercia o mandato de vereador pelo Partido dos Trabalhadores e presidia a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Ilhéus. Rosalino era irmão de Zé Antônio, meu amigo e colega fazendário.

As audiências em Brasília contavam com a presença de emissários do Ministério da Justiça e da Presidência da República. Num dos últimos encontros, o grupo foi também representado por deputados e senadores, além da sua presidente, Susana Lisboa. Lembrou-me da presença da ex-senadora Marina Silva, do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira e do ex-senador Valadão.

Enquanto o ministro empossava um diretor da Polícia Federal, esperávamos numa antessala. Clara Charf, defensora dos direitos humanos e viúva do guerrilheiro Carlos Marighella, integrava a comitiva.

De repente o ministro entrou afobado e tentou pegar um atalho. Feitos os cumprimentos de praxe e sem apresentar maiores detalhes, largou de sopetão:

– Já está tudo certo. O presidente vai encaminhar o anteprojeto e as família serão indenizadas.

A frase pareceu insensível, sobretudo por enfatizar as indenizações, em detrimento do valor histórico e pedagógico da autocrítica do Estado.

Assim que o ministro concluiu a sentença, Clara Charf reagiu com um pito daqueles.

– Guarde o seu dinheiro, ministro Jobim! Não viemos aqui por isso, mas sim pelo reconhecimento público do assassinato de tantos lutadores. O Estado matou meu marido covardemente. Nem nas guerras mais cruentas se mata um inimigo desarmado, como mataram Marighella.

A antessala ficou pequena para o silêncio ensurdecedor. As orelhas enormes do gaúcho ficaram vermelhas. O ministro pediu desculpas, mas o caldo já tinha entornado. O projeto, no entanto, foi aprovado sem demora.

José Henrique Abobreira é servidor aposentado da Fazenda Estadual e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.

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