
Por Wilson Gomes
Alguém já disse que o maior inconveniente da democracia é que, por melhor que seja a pessoa ou a agenda, precisam ser populares e conseguir votos. Mas vejam o exemplo contrário, isto é, como se comporta um presidente e uma agenda que nunca precisaram nem precisarão se submeter a uma eleição. Temer não precisa ser popular, não precisa levar em consideração a vontade da maioria, nem teme o futuro ajuste de contas eleitoral. E vai com tudo, porque tem uma agenda clara e um cronograma curtíssimo.
Alguns dirão que é o arranjo perfeito: a ausência de pressão popular torna o mandatário mais efetivo. Afinal, a necessidade de considerar eleições e popularidade limita a ação de quem governa e torna as suas decisões, em geral, muito dependentes do populismo. Mas a questão principal no caso não é o quanto ganhamos em efetividade, mas quem ganha com esta efetividade, quem é o seu beneficiário.
Quem não tem que considerar a opinião geral, não necessariamente trabalha para ser mais eficiente em servir ao interesse público. Governo que não trabalha com um eleitor fungando-lhe no cangote ou ameaçando-lhe com um acerto de contas na eleição seguinte pode se dar ao luxo de trabalhar para uma facção. A democracia sempre teve a justa má fama de ser lerda e populista, mas ao menos assim conseguimos nos proteger dos seus grandes fantasmas: os governos invisíveis, o domínio de facções. Temer trabalha nitidamente para implementar a agenda de uma facção. Nem Temer nem esta agenda foram apresentadas em uma eleição nem foram sufragados pelo voto. Nem Temer nem esta agenda se apresentarão na próxima eleição para se submeter ao teste da vontade coletiva nas urnas. Por que a vontade geral, o interesse da maioria, a consideração pelo interesse de todos deveriam entrar na equação? Não entram.
Repito. Temer não tem princípios, Temer tem é pressa. Temer é um intervalo entre duas eleições que não lhe dizem respeito nem afetam as suas políticas. Temer é o exemplo acabado do pesadelo madisoniano de governo de uma facção.
Wilson Gomes é professor da UFBA, onde coordena pesquisas sobre comunicação e política. Siga-o no Facebook.










