BLOG DO GUSMÃO

UM ANJO CHAMADO DILA

Abobreira lembra trajetória de Dila Freire no Resort Tororomba. Ela faleceu em novembro de 2016.
Abobreira lembra trajetória de Dila Freire no Resort Tororomba. Ela faleceu em novembro de 2016.

Por José Henrique Abobreira

abobreira artigoEla relutou muito em largar uma vida consolidada em São Paulo, onde conhecera e casara com o doutor Geraldo Castilho Freire, advogado, diretor de uma banca de advocacia famosa e exitosa, para se aventurar numa região distante, sem as facilidades a que estava acostumada.

O amor ao marido e ao seu filho único, Nelson Freire, entretanto, falou mais alto. Nascido em Itabuna e radicado na capital paulistana, Geraldo acalentava o sonho de um dia voltar à sua região e proporcionar oportunidades de desenvolvimento aos seus conterrâneos.

Homem de visão empreendedora, numa das visitas à terra Natal, deparou-se com a oportunidade de comprar uma área à beira-mar. Viu ali o início da realização do seu sonho de montar um projeto comercial. Iria construir naquelas paragens, uma área banhada pelo rio Tororomba, famoso pelas águas medicinais, um pouso para turistas, com um estabelecimento conceitualmente ecológico, agregando a natureza com sua fauna e flora exuberantes.

Pragmática, Dona Dila bateu o pé. Foi contra. Levantou óbices de natureza administrativa e financeira, mas cedeu, depois de verificar o esforço hercúleo do marido em iniciar as obras do resort. O projeto consolidaria o seu sonho de prestar um benefício aos “patrícios” grapiúnas, em termos de emprego e renda. Além disso, Geraldo contou com a ajuda inestimável do filho, Nelson Freire, mais conhecido simplesmente como Barão.

Barão chegou em Ilhéus disposto a tocar o projeto do pai.  Também advogado, carrega nas veias o talento criativo – é um mago na antevisão de conceitos e tendências. Pronto, estava formado o caldo de cultura para a vinda de Dona Dila.  

Enquanto o mago Barão antevia as tendências, novos elementos, serviços e tecnologias para o hotel, Dona Dila era quem pegava a maquininha de calcular e compatibilizava os planos para o futuro com a realidade do fluxo de caixa.

Ela, todavia, nunca perdeu de vista a compatibilização do negócio com a responsabilidade social, a qualidade de vida e a satisfação dos seus colaboradores. Coisa rara nessas plagas do cacau. Seguia o preceito de um mestre francês da administração: “O amor é essencial para os negócios”.

As ações sociais de Dona Dila em favor dos empregados a orgulhavam. Graduada em Assistência Social, cuidava da orientação aos servidores sobre planejamento familiar, orientando-os e mostrando como era complicada, do ponto de vista econômico, a vida de um casal com prole numerosa. Além disso, instituiu planos odontológico e de saúde de uma empresa renomada para todos os empregados e seus dependentes. Também bancou cursos profissionalizantes para que os funcionários ascendessem aos cargos mais elevados.

Dona Dila também estimulou os funcionários que moravam de aluguel a construir suas próprias casas. Doou os materiais de construção para os que já tinham terrenos. Não parou aí. Financiou os estudos de muitos deles em faculdades privadas. O benefício também alcançou os filhos dos empregados. A solidariedade da empresária foi além dos muros do hotel. Ela auxiliou crianças da região com talento para a dança a estudar no Balé Bolshoi, em Joinvile.

Com todo esse ambiente de satisfação e progresso entre os funcionários do Resort Tororomba, a benfeitora conseguiu formar não somente um quadro de servidores leais, mas uma grande família em toda sua diversidade de habilidades e talentos. Tudo isso repercutiu de forma positiva no funcionamento do hotel, onde os hóspedes sentem-se participantes de uma grande família e querem sempre voltar em outras temporadas para usufruir desse ambiente alegre, solidário e intimista.

Cabe ainda registrar as lembranças de tantos outros que testemunharam a generosidade desse anjo. No Clube Fazendário, espaço de lazer dos servidores da Fazenda Estadual, em frente ao Resort Tororomba, ouvi dos colegas muitos elogias sobre a responsabilidade social da empresária. Os caseiros do clube, Edson e Amélia, também atestam o legado de Dona Dila, assim como muitos moradores daquela área (Jahiry/Canabrava). Eu ouvia embevecido as histórias do meu irmão, Marco “Abobrinha”, sobre a bondosa senhora.

Este texto já estava na minha cabeça há um bom tempo, como fruto do meu desejo de homenagear Dona Dila por sua infinita bondade. Desejava solicitar aos amigos Dero Farias e Alisson Mendonça, vereadores de Ilhéus, que apresentassem projeto de lei que conferisse o título de cidadã ilheense à Dona Dila.

Recebi de Barão exemplar do livro A história dos 25 anos do Resort Tororomba. Retirei dele informações sobre a trajetória desse anjo chamado Dila, também conhecida carinhosamente como “Dona Xepa”. Assim os funcionários a chamavam em referência à sua parcimônia no planejamento financeiro do resort.

Em novembro último, deu-se o desenlace de Dona Dila Freire aqui desse nosso mundo. Ela ajudou a tornar possível o maior sonho de Geraldo, o de ajudar a sua região de nascimento a se desenvolver. Suas cinzas foram, cerimoniosamente, depositadas no mesmo local onde as do marido haviam sido espalhadas, no encontro do rio Tororomba com o mar. Dila costumava visitar esse local para refletir e se energizar com a lembrança do amado esposo.

José Henrique Abobreira é servidor aposentado da Receita Estadual e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.

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Respostas de 6

  1. Bela homenagem, digna de Anjo, Anjo Dona Dila.
    Sinto-me Honrado em ter conhecido, de tê-la, não só como patroa, mas
    também como amiga e por que não mãe?
    Mãe grandiosa e amorosa que acolheu seus filhos/colaboradores,
    que passaram, fizeram e fazem parte da família Tororomba.
    Saudades…

    Luciano “Píupa” Amaral
    Ex-Colaborador

  2. Texto impecável caro Abobreira, senti as palavras fluírem do fundo do teu imenso cotação… Quando escrevemos sentindo as poderosas forças da solidariedade, do reconhecimento e sobretudo, do amor ao próximo, a comunicação é imediata, leve, precisa, toca nossa alma!

  3. Compartilhando a informação com os amigos: o resort Tororomba reproduziu o artigo Um anjo chamado Dila, de nossa autoria, revisado pelo Thiago Dias e publicado pelo Blog Do Gusmaão, no seu boletim Tororomba News, um boletim informativo que é distribuído aos hóspedes do hotel diariamente.O Tororomba News é editado por Nelson Barão diretor do grupo.

  4. Nunca esqueci ou esquecerei esse anjo. Uma senhora muito simples, de um coração do tamanho do mundo.
    A conheci na primeira vez que me hospedei no Resort, o acolhimento carinhoso que ela dava a cada hospede era o diferencial do lugar
    Aprendi a amar esse lugar que para mim, é um pedaço do paraíso que Deus deixou na Terra, por causa de D. Dila.
    Frequento o Resort anualmente há 16 anos e sinto a presença dela lá.

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