
O ex-vice-prefeito José Henrique Abobreira herdou do pai, Eronildes Abobreira, a generosidade com que se dedica às causas do povo de Ilhéus. No artigo abaixo, ele revela o drama familiar desencadeado pela prisão de Eronildes pelo regime militar instalado após o golpe de 1964. Abobreira foi preso por desempenhar importante papel como liderança sindical entre os servidores dos Correios. Leia.
ERONILDES ABOBREIRA, UM GUERREIRO DAS CAUSAS DO POVO
Dedico estas palavras aos incautos que defendem nova intervenção militar.
Um dia, no início de março de 1964, ele pediu que toda a família fosse à missa dominical. Fomos todos: minha mãe (professora Gilda), Vó Joaninha e as cinco crianças. Sou o mais velho dos filhos, tinha dez anos à época. A política nacional vivia naquele momento o começo de um longo período de radicalização totalitária. Eronildes Abobreira, meu pai, reuniu a família numa comunhão religiosa como se já pudesse antever a violência que se abateria sobre ele. Naquela altura, era uma liderança entre os servidores dos Correios e Telégrafos, onde trabalhou por 25 anos.
Eronildes nasceu em Pirangi. Mudou-se para Ilhéus após ascender na estrutura dos Correios como telegrafista concursado. Antes, foi estagiário na terra Natal. Jovem, muito vivo e com espírito de liderança, batia de frente com as chefias locais e na regional em Salvador, para defender os direitos trabalhistas de seus colegas servidores.
Eram constantes as suas idas ao Rio de Janeiro, então capital da República, para tratar de salários atrasados e promoções devidas aos colegas. Assim se aproximou dos sindicatos, das centrais sindicais e outras entidades classistas.
Quanto mais o tempo corria, mais ele se enfronhava nas lutas sociais da região grapiúna. A conformação das mobilizações em Ilhéus naquela época favorecia esse envolvimento, com o movimento ainda incipiente de organização sindical dos trabalhadores rurais, mas com movimentos fortíssimos e organizados dos portuários e ferroviários.
No governo João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, o sindicalismo ganhou força. Em Ilhéus não foi diferente. As organizações avançaram bastante. É suficiente dizer que o ministro do Trabalho Franco Montoro esteve em Ilhéus para assinar a concessão da carta sindical ao recém-formado Sindicato dos Bancários.
Numa dessas crises cíclicas do cacau, Abobreira liderou comitiva ilheense em audiência com o presidente Jango. Era um deputado sem mandato. Isso incomodava muito a elite local. Um Abobreira, sem eira nem beira, assim diziam, ser recebido pelo presidente da República.
Ele enfrentou todas as injustiças cometidas contra os mais fracos. Onde hoje é o bairro Nelson Costa e o alto do Mambape, sustentou uma luta judicial de vários anos ajudando o posseiro instalado na área que ali produzia e vivia com a sua família. Ganharam a ação, e o senhor Raimundo, de posseiro, passou a dono. A companhia estrangeira MooreMarck era a proprietária das terras abandonadas.
Além de ser um leão nas lutas do povo trabalhador, meu pai já era uma pessoa extremamente generosa. Vivíamos numa casinha modesta, mas o pão da mulher e dos filhos, que não era lá essas fartura devido à condição financeira precária, mesmo assim era dividido com quem não tinha.
Permanece viva na minha memória a lembrança das diversas vezes em que vinha meu pai do Centro com alguém a tiracolo para almoçar em casa. Nenga, a cega que pedia esmola na cidade ou qualquer menino que pegava carrego no porto das lanchas. A nossa casa pequenina vivia cheia. Vinha gente de Macuco, Camacã, Uruçuca e de todo esse mundão de Deus, e ele a atender e a orientar a todos.
Mateus, líder sindical dos trabalhadores rurais, lá dos confins da Palestina, Barbosa Ceguinho, cantador de Canavieiras; Ozório portuário, Bina ferroviário, a todos ele atendia e ajudava a apontar rumos para a luta. Petições para viúvas que dependiam das pensões dos maridos, cartas marítimas para os pescadores, bilhetes solicitando emprego para correligionários, requerimentos aos ministérios, tudo isso o velho Abobreira redigia e encaminhava a quem de direito.
Também ajudou perseguidos por motivos políticos a escapar para longe das garras da polícia. Na década de 1950, período do governo do tenentista Juracy Magalhães, a atividade sindical dos trabalhadores rurais na região do cacau era vista como subversiva e reprimida duramente. Abobreira, dentro dos Correios, ao operar a máquina de Morse recebendo as mensagens telegráficas do governo estadual ordenando a prisão de lideranças sindicais, de imediato fretava um jipe no ponto da Cantina da Lua e tratava de achar esconderijo para todos. A fazenda do pai de Jorge Amado, em Barro Preto, era um dos locais em que o militante comunista Carlos se escondia. Em razão disso surgiu o romance e casamento de Carlos e Jurandi, filha de Virgílio e dona Soledade, administradores da Fazenda. Zélia Gattai, esposa de Jorge, cita Virgílio e Soledade numa de suas obras.
Surge o golpe de março de 1964. A violência contra sindicalistas e militantes comunistas é deflagrada. Abobreira é detido em casa por uma patrulha militar chefiada pelo major de exército Paulo de Marco. Foi recambiado para Salvador e ficara preso no quartel de Amaralina para responder a inquérito.
Foram seis meses de agonia. Mulher e filhos sem notícias de qualquer espécie. Colegas dos Correios enviaram documentos e mais documentos ao comandante à época da VI Região Militar, pedindo a soltura dele. A boataria correndo solta, e eu, menino ainda, ficava chocado quando ouvia passando nas portas dos bares as pessoas falando: “Abobreira foi enviado para Fernando de Noronha, lá só vão os mais perigosos, se duvidar vai ser fuzilado!”.
No famigerado governo Médici, o mais repressivo de todos, Abobreira foi demitido do serviço público com um inquérito forjado de abandono do trabalho. Em 1972, faleceu em Salvador aos 42 anos. O coração, apesar de jovem, não resistiu a tantos vexames e amarguras pelo simples fato de ser um patriota e ter lutado pela reforma agrária, por uma sociedade menos desigual e por um Brasil mais justo e solidário. Sua viúva não teve sequer direito a uma pensão por morte.
Anos depois da sua morte, em 1988, estava eu, candidato a vereador, durante um comício realizado no bairro do Malhado, na campanha a prefeito de João Lyrio, quando uma mão tocou o meu ombro. Era o doutor Paulo de Marco, já oficial da reserva, simpatizante do PC do B e procurador da Prefeitura de Ilhéus. Puxou-me para o fundo do palanque eleitoral e me disse textualmente:
– Henrique Abobreira, quero lhe pedir desculpas. Eu prendi o seu pai em 1964. Não foi um ato justo, mas cumpria ordens e hoje me arrependo de tê-las cumprido.
Respondi que não guardava rancor dele, mas na minha opinião tinha de ser passado a limpo o período em que se matou e torturou durante a ditadura, o que não era o caso dele. Faça-se justiça: as informações que toda a Ilhéus sabia era de que tinha sido um moderado e não tinha entrado na fúria repressiva da comunidade de informações que hegemonizou o processo repressivo pós-68. Disse-lhe também que aquele momento não era o de remoer o passado, pois ali, juntos no palanque, estávamos a reconstruir o futuro da nossa democracia tão vilmente violentada.
José Henrique Abobreira é auditor aposentado da Receita Estadual e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.











Respostas de 7
Uma página triste da nossa História. Devemos o mérito do reconhecimento a quem se doou em vida pela causa comum.
Divani Queiroz Alves Fiquei emocionada ao ler sobre o herói que foi seu pai. Infelizmente, nos tempos atuais, lembranças, relatos, vivências doloridas desses tenebrosos anos povoam nossos pensares…
As pessoas não sabem o que é tortura, não querem saber do valor da liberdade, passam por cima da democracia, solidariedade… Eu jurei que jamais sairia de meu país porque sei que bom mesmo é o meu Brasil brasileiro, bom mesmo é o meu povo, boa mesmo é a nossa comida…Como Suassuna não tenho complexo de vira-latas e de fora só quero o que é bom. E mais: traidor é traidor, não adianta a máscara…Meu carinho, amigo!
Parabéns, Sr. Abobreira, pelo teu senso de justiça e por tua brilhante demonstração de amor filial! Creio ter sido em virtude da generosidade e boa vontade do teu saudoso genitor em servir ao próximo, que os sindicalistas e militantes comunistas, à época,fizeram dele um “escudo moral”, um “inocente útil”, levando-o a sofrer, injustamente, o que sofreu, como mais um justo a pagar pelos pecadores! Esta tua bem redigida coluna me fez conhecer o Sr. Eronildes Abobreira e acreditar que ele só queria fazer o bem a todos, e que jamais almejou ver nosso Brasil transformado numa Cuba ou numa Venezuela! Ele desconhecia a verdadeira intenção dos demais reprimidos pela Revolução/Contragolpe de 1964, mas os que o enganaram estão, hoje, mortos, presos ou na “alça de mira” da OPERAÇÃO LAVA JATO! Graças a DEUS e ao Seu ungido, DR.SÉRGIO MORO! “Quem não conhece a verdade não passa de um tolo (ou incauto defensor da ideologia comunista bolivariana); mas quem a conhece e a chama de mentira é um CRIMINOSO!” (Bertolt Brecht). Um fraternal abraço! Feliz Réveillon!
Caro coronel Batista primeiramente agradecendo suas palavras generosas a respeito do meu genitor Eronildes Abobreira. O sr. cita na sua mensagem o ilustre teatrólogo Bertolt Brecht, escritor alemão, marxista, cuja estética revolucionária deu sentido social ao teatro, usando-o como arma de conscientização e politização das massas. Realmente esses que são a vanguarda dos avanços da humanidade pagam caro pela audácia de desejarem e lutarem por um mundo mais generoso. Brecht pagou com o exílio forçado pelo genocida Hitler e passou pela União Soviética, Eua, Suécia, Finlândia e Suiça correndo do regime nazista Meu pai Eronildes Abobreira, como o sr. reconhece, foi um desses homens, imprescindíveis na ajuda ao próximo.
Um abraço fraterno e Feliz 2017.
Bom ,o relato histórico da vida em militância do seu pai. Boa herança e exemplo
de luta tem você Abobreira.
De tirar o fôlego. Quanto orgulho de conhecer um homem com tantas memórias de luta como seu Abrobreira .
Excelente texto, gratificante e necessário, nesses tempos de obscurantismo em que mergulhamos após o golpe que tirou a Presidente Dilma do poder.