BLOG DO GUSMÃO

JERÔNIMO, UM MARUJO DA VELHA GUARDA DO PONTAL

Fred Abobreira, José Henrique Abobreira e Jerônimo Sena: um brinde entre três gerações do Pontal.
Fred Abobreira, José Henrique Abobreira e Jerônimo Sena: um brinde entre três gerações do Pontal.

Por José Henrique Abobreira

O seu pai, Marcolino Bernardino Sena, veio das bandas da Costa do Sauípe. Trazido por João de Góes, tomava conta da fazenda Aldeia Velha. Dividia o tempo vago entre a pescaria no mar e no mangue atrás da fazenda. Aquela área hoje é ocupada por condomínios residenciais, hotéis e pousadas, tendo ao fundo o bairro Nossa Senhora das Vitórias, na zona sul de Ilhéus.

Marcolino instalou a família na rua do Sauípe. O local recebeu esse nome dos pescadores vindos do distrito litorâneo do município baiano de Mata de São João. Ali, teve treze filhos. Jerônimo, o caçula da extensa prole, seguiu a inclinação dos sauipenses. Foi marujo de todas as embarcações e calados. Do calão de lance de rede na praia da Concha à pesca do salgueiro em alto mar. Trabalhou em alvarengas e nos convés dos rebocadores que puxavam as chatas carregadas de cacau em direção aos enormes cargueiros russos, americanos, escandinavos e poloneses ancorados em mar aberto. Muitas vezes, a barra do Pontal não permitia a entrada desses gigantes dos mares no velho porto na foz do rio Cachoeira.

Certa feita, numa tarde de mar revolto e maré alta, Jerônimo estava no convés do rebocador Deal. Observava as vagas medonhas em fúria e percebeu a embarcação à deriva. Correu para a casa de comando e encontrou o comandante Bomfim desmaiado. Momento de extrema tensão. Era preciso atravessar a barra traiçoeira. Naquelas águas já tinham soçobrado o navio Itacaré, provocando inúmeras mortes, e outras embarcações.

Bomfim sofrera um surto de hipertensão e, por isso, perdera os sentidos. Assenhoreando-se contra o desespero, Jerônimo assumiu o timão do navio e, bravamente, atravessou a barra para encostar o rebocador e a alvarenga no navio que esperava fora do porto.

Jerônimo me narrou esse episódio no último sábado (7), quando conversamos por duas horas na cabana Guarany. Ele bate ponto diariamente no estabelecimento, que é da sua filha Tetê e do seu genro Luís. Atua como um autêntico maitre recebendo o público com extrema fidalguia. Cercado pelo carinho dos netos e bisnetos, recebeu-me com um sorriso largo. Na véspera, pedi que a sua neta Daiana avisasse que eu queria encontrá-lo para ouvir histórias e causos do Pontal das antigas.

Provocado a extrair da memória “estórias” pitorescas do nosso Pontal, o marujo da velha guarda soltou o verbo. Falou sobre as aventuras que viveu em cada porto. De Salvador ao Rio de Janeiro, do Recife a Aracaju, cada desembarque o transformava num personagem amadiano. Percorreu cabarés de todas as zonas portuárias procurando a cabrocha que lhe ofereceria o regaço para aliviar as tensões da vida em alto mar.

Ainda rapazinho, viu dona Doninha, minha avó materna, dar uma carreira numa formosa morena que estava em situação intimista com o velho Pedro Dobre, meu avô. A bodega de vô Pedro era numa casa de esquina. O oitão tinha uma porta de fundo, que dava acesso a um pequeno espaço transformado num camarote vip, para tomar uns tragos e para receber a sereia pontalense. Alguém da vizinhança deu com a língua nos dentes. Dona Doninha descobriu os encontros furtivos e armou um flagra que repercutiu muito entre os bons modos da família pontalense. Risos.

Jerônino também lembrou dos velhos amigos, verdadeiros mestres dos mares. Agenor Grande do calão, seu irmão, casado com dona Dolores e pai de Zelito Prisco. Zé Verdete, Zuza, Aquino, Otávio e Durval, nativo de um quilombo situado entre Valença e Cairu, com quem ainda conversa constantemente na sua casinha do Nelson Costa.

Recordou dos babas ainda menino no areal entre a banca do peixe e o pé frondoso de fruta pão em frente ao Bar do Lico. Num desses encontros esportivos, quase se meteu numa encrenca quando deu umas porradas no filho do delegado. Jerônimo era goleiro e não gostou da gozação que ouviu por ter tomado um gol dele.

Nas quatro linhas, defendeu as cores do time da Alvarengagem, formado pelos trabalhadores portuários das alvarengas. Jogou contra muitas equipes daquela época, como: o Plebeu de Cid Ribeiro e Zequinha Mendonça, o Internacional de Beco e o Galícia de Bomfim, Melhoral e Pé de bolo. Numa partida de futebol pelo Alvarengagem no rio de Engenho, o jogo transformou-se numa batalha campal com foices e facões. Os visitantes fugiram às pressas. Felizmente, o marujo Zé Amorim já estava com o motor da lancha ligado.

Desistiu da vida de goleiro numa tarde de chuva e maré alta. Quando a água invadiu o campo da baixada no pé do morro de Pernambuco, Jerônimo viu as pequeninas tainhas nadando e decidiu trocar as artes da bola pelas dos mares.

A professora Mariinha também habita a memória do marujo. Ícone do ensino primário no velho Pontal e esposa de Galório (boêmio gozador), a docente iniciou um curso noturno de alfabetização de adultos. Era voltado para o pessoal que labutava durante o dia. O hoje centenário colégio Barão de Macaúbas sediou as aulas assistidas por pescadores, proeiros das lanchas da travessia Ilhéus-Pontal, pequenos vendeiros e mães de família que não puderam estudar quando jovens.

Jerônimo lembra que a valorosa professora deu o melhor de si para ensinar as primeiras letras ao grupo. Até que entrou água no barco. O curso antecipou o estilo consagrado pela Escolinha do Professor Raimundo. Athanásio, proeiro da lancha de seu Arlindo Penalva, detonou o gatilho da anarquia.

Mariinha perguntou aos alunos sobre os índios antropófagos que habitavam a costa brasileira. Queria ouvir deles justamente o nome que conceituava a predileção por carne humana em alguns rituais dessas etnias. Deu pistas moles para uma plateia pouco afeita aos livros de história. Na última cartada, pediu que a turma completasse a frase. “Aqueles que comiam os portugueses se chamavam antro…”.

O grandão Athanásio levantou a mão para responder. A professora incentivou:

– Muito bem seu Athanásio, vá em frente!

Athanásio largou:

– Professora, eu não sei dizer o nome de quem comia, mas quem dava era chibungo!

A estudantada pipocou com o chaveco do aluno desastrado. A aula acabou sob gritos e uivos.

Do alto dos seus 90 anos, com a saúde nos trinques, Jerônimo esbanja lucidez e jovialidade. Diariamente, sorve de leve a sua cervejinha. Com um copo de Serra Malte na mão direita, brindou à vida. Exaltou a própria vida simples de homem trabalhador, humilde e honrado. Sorriu ao dizer que não tem nenhum inimigo, mesmo com quase um século de história.

Quase na despedida, depois de algumas brejas, pedi um pastel e ofereci outro a Jerônimo. Recusou e explicou que naquela manhã, antes de me encontrar, bateu um prato de feijoada adubada.

José Henrique Abobreira é servidor aposentado da Receita Estadual e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.

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