BLOG DO GUSMÃO

Menu

Siga-nos

JOSÉ FERNANDES DE ARAÚJO, UM GRANDE HOMEM PÚBLICO DO PONTAL

José Fernandes (camisa listrada), em 1988, ao lado dos colegas vereadores Hamilton Andrade e Ana Margarida. Imagem do acervo do Blog Catucadas, de José Nazal.
José Fernandes (camisa listrada), em 1988, ao lado dos colegas vereadores Hamilton Andrade e Ana Margarida. Imagem do acervo do Blog Catucadas, de José Nazal.

Por José Henrique Abobreira.

José Henrique AbobreiraTia Alice – assim a chamávamos -, proprietária de uma pequena venda instalada na antiga rua do Mata Calado, nos contava que tinha vindo dos lados da cidade de Alagoinhas. Ainda no início da década de 1960, trabalhava com a família como pequena agricultora na zona rural daquela cidade situada no nordeste da Bahia. Fugira das dificuldades da vida no campo, o trabalho na enxada de sol a sol, plantando alimentos de subsistência e lutando contra a inclemência climática. Viera tentar a sorte em Ilhéus, cidade maior e de economia pujante, repleta de oportunidades para quem se dispusesse a trabalhar e levar uma vida mais tranquila. A fama do cacau e das suas riquezas chegara até os rincões onde dona Alice mourejava a terra inóspita. Trouxe consigo o sobrinho Zé Fernandes, ainda moço, que a ajudou a fundar o pequeno estabelecimento comercial, e a auxiliava no balcão da venda, tipo de comércio bem comum no bairro do Pontal naquela época.  Na sua vizinhança, mourejavam naquele ramo os vendeiros Antonio Faislon e seu irmão Amaro, Milton Farias, Pedro Dobre, dona Cassi e seo Pereira.

Ali começou o nosso conhecimento familiar. Morávamos naquela mesma rua, comprávamos na venda de dona Alice. Zé logo formou uma amizade sólida com o meu pai, Eronildes Abobreira.

Zé Fernandes, moço ativo, inteligente, jeitoso e muito educado no relacionamento com as pessoas, tinha uma visão arrojada e futurista. Logo percebeu que, para avançar na cidade grande, precisaria, primeiro, de um trabalho regular, além de estudar com afinco e ser guindado ao lugar merecido na escala social, trabalhador esforçado que era.

Antenado, fez um curso para atuar no comércio. Fez também boas amizades, com um grande círculo de amigos. Não demorou a conquistar um emprego na Telesul, primeira companhia telefônica da região. Convidado pelo senhor Elias Mattos, chefe da companhia, logo se destacou na excelência no atendimento e arrojo no trabalho.

Mais de uma década depois, Zé me confessaria que, numa conversa no balcão da venda, confidenciara ao velho Abobreira que estava de passagem comprada na Etimisa, empresa de ônibus que fazia o trajeto de Ilhéus para o Rio de Janeiro, pois aqui não tinha conseguido uma chance de emprego formal. Ao ouvir aquilo, o velho pediu pra ver as passagens e, de posse delas, rasgou-as, antes de emendar:

–  Zé Fernandes, o seu lugar é aqui! Você é um moço de valor e trabalhador, portanto, vou falar com amigos para conseguir uma colocação de emprego para você aqui em Ilhéus. Tempos depois, foi chamado para a Telesul. Abobreira havia acionado seu Elias Mattos em favor do amigo moço. Ele, sem pedir segredo, me confessou que jamais esqueceria aquele gesto de solidariedade de meu pai.

Anos depois, já na década de setenta, tendo rápida ascensão profissional pela sua inteligência e profunda capacidade de trabalho na administração pública, deixou a Telesul para assumir um posto de direção do recém-inaugurado Hospital Regional Luiz Viana Filho. No novo posto, já na área de saúde pública, em muito assistiu ao povo pobre do Pontal e, também, foi um verdadeiro servidor da sociedade ilheense. A população desassistida da Nova Brasília, Marambaia, Prôa, Barreira, formada por gente paupérrima, pescadores, desempregados, donas de casa, pessoas idosas, teve nele um batalhador incansável a providenciar atendimento médico, cirurgias, exames e internações naquele nosocômio. Ainda não existiam SUS e planos de saúde.

Constituiu família casando-se com Edilza, que era colega minha no curso ginasial do IME Pontal. Daí para a política foi um pulo. Elegeu-se vereador em vários mandatos, tendo hoje uma rua no bairro Vilela com o seu nome, tal a marca que deixou a serviço de seu povo.

A bola não foi sua amiga. Era muito desajeitado nas artes do futebol, nos babas da praia da frente ou no campo de areia da Nova Brasília, onde hoje fica a Maramata. Em compensação, foi “cartola” do time amador Pontal Esporte Clube, sua grande paixão, ao lado de Jaziel Martins e seu irmão Gezer, Ricardinho do Picolé Rico e Barretão, pai do nosso amigo oficial PM Marcelo Barreto. O Pontal tinha craques verdadeiros: China, Dicó, Zito Fuminho, Sibel, Bira, Guio, Barriga e muitos outros conterrâneos bons de bola.

Zé também era um homem religioso. Ajudou bastante, com seu exemplo e participação, a paróquia de São João Batista no Pontal.

Na vida pública, quis o destino que, embora amigos, nos situássemos em campos políticos opostos. Mas, sempre respeitamos a opção política de cada um de nós, aplicando no nosso relacionamento a regra do respeito pessoal. A divergência era só nas ideias. Prova disso é que quando me elegi vice-prefeito, e o Zé Fernandes, na mesma eleição, elegeu-se vereador, em chapas concorrentes, fui o primeiro a telefonar para sua residência para cumprimentá-lo pela vitória. Da mesma forma, ele me retribuiu as felicitações.

Outra passagem também refletiu o nosso relacionamento político respeitoso.  Recebi um pedido do então prefeito Jabes Ribeiro (eu era o seu vice) para articular o voto do vereador Zé Fernandes, da bancada da oposição, em favor da aprovação do nome do Dr. Raymundo Laranjeiras para Procurador Geral do Município. O Dr. Laranjeiras, ilustre amigo, causídico e nosso professor na Faculdade de Direito, merecia uma aprovação por unanimidade, uma forma de reconhecimento honroso, por parte do Legislativo Municipal, de sua competência como grande magistrado que era e professor de várias gerações na FESPI\UESC, nós dois, eu e o vereador Zé, incluídos nesse rol de ex-alunos. Telefonei para Zé Fernandes e expliquei-lhe a situação. Ele garantiu o voto e cumpriu. Mais uma prova de sua grandeza, pois era o mais combativo opositor ao nosso governo, mas fez prevalecer o respeito ao mérito do mestre.

De outra vez, em um novo episódio político, o nosso Zé foi bastante atencioso e generoso para comigo. Na adesão de Jabes ao grupo do então senador ACM, José Fernandes, que pertencia àquele agrupamento político, afastou-se do senador em repúdio ao ingresso de Jabes naquela corrente política. Lançou então um manifesto, que foi publicado nos jornais, lido nas emissoras de rádio e impresso em panfleto que foi distribuído na cidade. Desceu a madeira em JR e na sua administração. No texto do manifesto, destacava a minha presença na gestão e ressaltou que a minha atuação era o único fator de equilíbrio naquele governo municipal.

O amigo José Fernandes morreu de forma trágica num acidente automobilístico. No seu enterro, a grande maioria do povo do Pontal, principalmente a parcela mais humilde e desprotegida, que teve em Zé o anjo protetor na área do atendimento público no Hospital Regional, acorreu ao cemitério.

Morreu pobre, porque, grande homem público que era, não se aproveitou da política enricar, coisa tão comum no nosso mundo. Hoje, a sua Edilza e o seu filho, Júnior, seguem o seu exemplo de luta, trabalho e vida honrada, com a administração de uma modesta pousada deixada por ele na vizinha cidade de Itacaré.

José Henrique Abobreira é servidor aposentado da Receita Estadual e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.

WhatsApp
Facebook
Twitter
Email
Print

4 respostas

  1. Feliz e emocionada ao ver a história do meu tio avô contada em detalhes, até os que não tinha conhecimento, um homem guerreiro que deixa muita saudade.

  2. Linda a história de meu tio, irmão de meu pai Domingos. Sinto saudades, sempre que podia ele nos visitava em Cardeal da Silva, litoral norte baiano. Meu tio era admirado e amado por toda família.

  3. Boa noite, depois de tanto tempo hoje tive o prazer e a honra de ler essas palavras escritas sobre meu pai, fico feliz em saber e conhecer pelo convivio o homem, pai, profissional dedicado, e que ser humano não tenho palavras para descrever o quão feliz e emocionado fiquei lendo esse texto esplendido sobre a historia de vida de meu pai. Muito obrigado Henrique Abobreira pela homenagem, abraços.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Newsletter

Fique Informado

Assine a newsletter e receba as notícias que você não pode perder diretamente no seu e-mail.
É rápido. É fácil. É de graça.

Siga-nos
Mais lidas
novembro 2017
S T Q Q S S D
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930