BLOG DO GUSMÃO

CENÁRIOS POLÍTICOS PARA A ESQUERDA EM 2018

Por Wilson Gomes.

Vamos brincar um pouco de cenário? Desde 1989 não tivemos um cenário eleitoral com tantos candidatos “médios” na intenção de voto. Em 89 Collor “disparou” no 1º turno com menos de 1/3 dos votos (30,5%), enquanto atrás deles disputaram, com forças semelhantes, Lula (17,2), Brizola (16,5) e Covas (11,5), 45% dos votos. Lula foi ao 2º turno com apenas 17% dos votos, tendo vencido surpreendentemente Brizola, por muito pouco*.

1994 e 1998 foram eleições em que uma grande força (FHC) derrotou facilmente uma força secundária (Lula). 2006, ao contrário, foi uma eleição em primeiro turno em que duas grandes forças polarizou a eleição: 48,6 para Lula, 41,6 para Alckmin.

Cenários muito diferentes do que pode acontecer este ano.

Em 2002, 2010 e 2014 houve uma terceira força, secundária, que opôs considerável resistência. Na mais disputada, 2002 Serra ganhou de Garotinho um lugar no segundo turno com 23,2 contra 17,9. Em 2010 e 2014 houve uma disputa de três forças, com Marina representando a 3ª força (19,3) e (21,3) contra PT e PSDB. Nestes anos, o percentual que credenciou a segunda força a ir ao segundo turno esteve acima de 30%: 32,6 de Serra em 2010 e 33,5 de Aécio em 2014.

Em 2018, a tendência é que se repita o cenário de 1989. Os eventos pós-2014 parece ter aberto uma janela de oportunidades para outros partidos fora da contraposição que vem desde 1994, entre tucanos e petistas. Temos os candidatos que já foram segundos e terceiros colocados – como Alckmin, Ciro e Marina – e dois novos candidatos com bom percentual de votos – Bolsonaro e Barbosa. E temos a grande novidade, Lula, que não será candidato, mas, acredita-se, será um grande orientador de votos.

Os petistas mais convictos acham que o apontado por Lula estará no segundo turno. Se Lula, de fato, transferir os 30% de votos que parecem ser o seu patrimônio eleitoral, sim. Mas uma coisa é pensar isso em abstrato; outra, muito diferente, é colocar uma foto e um curriculum e dizer “votem neste/nesta”. O lulista de fé negocia mal com a realidade, despreza o sistema político ou desconfia dele e é hiperideológico, o que são premissas que dizem que a “transferência de voto” não é nada garantida. Já estão fazendo exigência de que o Escolhido declare que Lula é preso político, apareça em vídeos jejuando em Curitiba e que nunca, jamais, tenha dito ou escrito qualquer coisa que desagrade a susceptibilidade de petistas e lulistas. Do jeito que a coisa vai, ninguém será “Lula o suficiente” para ocupar o seu lugar na cédula eleitoral.

Bolsonaro dá como certo o segundo turno. Se as forças que se agruparam ao redor dele (antipetistas, ultraconservadores, intervencionistas militares e os antipolítica) se mantiverem coesas, é muito aprovável que o patrimônio de intenções de voto que tem seja grande o bastante para ir ao segundo turno. Com cinco candidatos competitivos e disputando focinho a focinho, os 20% de Bolsonaro dão e sobram para o seu propósito.

Se os petistas continuarem cultivando a animosidade (“quem quiser ser o Ungido por Lula, venha de joelhos, contrito e humilhado, e mostre que sempre o amou e venerou”), não será improvável que terminemos o primeiro turno com Alckmin, Ciro, Marina e Barbosa disputando um ou dois pontos percentuais para enfrentar o Capitão no segundo turno. Por isso, insisto, podemos ter uma situação à francesa, em que o segundo turno seja ocupado pela primeira vez desde que se instaurou o novo ciclo eleitoral democrático, entre um candidato da direita (porque Alckmin é hoje o candidato da direita) e um candidato da extrema-direita. Isso não é apenas possível, é altamente plausível.

No melhor cenário, em um determinado momento, que não pode demorar muito, a esquerda vai ter que se aproximar do centro (Barbosa, Ciro e Marina) e fazer uma escolha pragmática, de sobrevivência mesmo. E, infelizmente, isso pode ter que ser feito antes do segundo turno, pois o risco de este aconteça à francesa (em que se tem que votar na direita para impedir a extrema-direita) é real. A não ser que alguém encontre uma fórmula, improvável, de fazer Boulos ou Manuela decolarem. Descreio.

De uma coisa, entretanto, os meus amigos petistas podem ter certeza: Lula não elegerá, outra vez, um poste. Mesmo os “postes” anteriores, Dilma e Haddad, foram, na verdade, candidaturas construídas com tempo, planejamento e investimento. Política, no mundo real, se faz assim. Planejando e fazendo escolhas no universo das possibilidades. Ou perdendo e culpando a realidade por não se ajustar aos nossos princípios.

Wilson Gomes é professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, onde coordena pesquisas sobre democracia e comunicação.

*Texto publicado segunda-feira (7) no Facebook do autor.

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