Por Maria Tereza Jorge Pádua, publicado em O Eco.
Há alguns dias o sistema agrícola tradicional das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudeste paulista, foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O tal sistema é o “plantio das roças tradicionais que requer o corte de pequena área de vegetação nativa de Mata Atlântica para fazer a roça”. Em bom português isto significa desmatar, ou seja, derrubar árvores e queimar. Verdade é que, no caso, pode se tratar de áreas discretas, mas que ocorre numa das regiões mais desmatadas do Brasil, abrindo um curioso e perigoso precedente num país que pretende lutar contra o desmatamento.
A agricultura de roça e queima
A descrição do cultivo que agora é “patrimônio cultural” oferecida pelos defensores da proposta, no caso do Vale do Ribeira, diz que a floresta é cortada e que “a vegetação é queimada em forma controlada permitindo que as cinzas fertilizem o solo”. Estas áreas abertas na floresta são cultivadas por períodos de dois a três anos, ou até que o solo não esteja mais tão fértil. Depois o produtor abandona este trecho e a floresta “se regenera”.
Esta forma de agricultura primitiva é praticada por indígenas e quilombolas, mas, também, é usada por populações tradicionais e não tradicionais de outras regiões. Esta forma de agricultura, conhecida como agricultura migratória é, como bem demonstrado, uma das principais causas do desmatamento da Amazônia e de outras florestas tropicais e subtropicais do mundo, junto com a pecuária e a agricultura moderna. A área desmatada cada ano pode, realmente, ser pequena, como se pretende que sejam as dos quilombolas, mas, frequentemente, alcançam de meio hectare a mais de um hectare. Como essa prática, que em geral é realizada por agricultores informais, se repete a cada ano, seu impacto acumulado é muito grande. No Brasil este tipo de agricultura pode estar aumentando. Nos países andino-amazônicos a prática abre enormes frentes de destruição e fogo que se somam aos ocasionados por outros atores.
Esta forma de agricultura era até adequada no caso das populações indígenas originais, com baixa população e muita terra e, sem dúvida, também para os quilombolas do passado que se assimilaram culturalmente aos anteriores. Porém, a sua validade na situação socioeconômica atual é altamente discutível fora dos territórios indígenas. Vários fatos devem ser lembrados: (i) trata-se de uma forma muito ineficiente de agricultura, com baixa produtividade que consolida a pobreza da população que a usa; (ii) requer a destruição de florestas naturais sobre uma extensão muito maior que a que é realmente necessária para alimentar os que a praticam; (iii) requer uso do fogo que, muitas vezes, sai do controle e provoca incêndios florestais; (iv) embora a floresta eliminada possa se “regenerar”, a área desmatada nunca recupera sua riqueza biológica original.
Sob qualquer parâmetro social, econômico ou ecológico, a agricultura de roça e queima deve ser progressivamente transformada em uma das tantas opções de agricultura mais produtivas e estáveis como, diga-se de passagem, usaram os próprios indígenas amazônicos com a prática conhecida como “terra preta”, dentre outras. Para conservar as supostas virtudes das variedades cultivadas pelos quilombolas existem muitas formas de fazê-lo, sem continuar desmatando. Para isso se inventaram os bancos genéticos e a Embrapa, sem dúvida, sabe fazer isso com extraordinária competência. Também se alega que é agricultura orgânica. Tudo bem. No entanto, destruir árvores nativas centenárias, que suportam uma rica e diversificada fauna, para plantar milho e mandioca não é muito “orgânico” e, para ser orgânico, não se precisa abrir roças novas anualmente.
O caso do Vale do Ribeira em São Paulo








