BLOG DO GUSMÃO

Dos medos, o pior. Um breve ensaio

Por Mohammad Jamal.

No livro, Virginia acorda de mau humor, sentindo-se triste e “indócil como um lobo” (p. 2); a irmã, Vanessa, faz de tudo para alegrá-la, sem sucesso, até que tem uma ideia: dar vida ao desejo de Virginia de ter um lugar perfeito para onde voar quando tudo parece ruim e sombrio. Entra em cena, assim, o poder da arte e o da imaginação criativa, capazes de amenizar a tristeza e ajudar no enfrentamento dos humores e sentimentos mais difíceis. A história de Kyo Maclear possui diferentes camadas de significado, que podem ser lidas de modo independente, mas que se complementam, contribuindo para a compreensão geral, sobre tudo do medo atávico.

Falar sobre medo é algo muito complexo e paradoxal, tendo em vista as singularidades do ser humano e as infinidades de fatores psicológicos capazes de desencadeá-lo. Medo de dirigir, medo de morrer, medo de baratas, medo de assombração, medo de envelhecer, medo de não se reeleger ou de ser investigado pela PF, medo da opinião pública, da imprensa, etc. São tantos que elencá-los seria impossível.

Além do sofrimento psíquico vivenciado pelo indivíduo fóbico, junto com o medo e a fobia, vem o sofrimento físico, as reações orgânicas e fisiológicas alteradas por conta de um estado de forte emoção e angústia. Gastrites, diarreias, alopecia, perda da libido, distúrbios do humor, alterações oníricas, pesadelos vívidos…

“O medo não é uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer.”. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

Boi da cara preta, um acalanto; canção e letra ingênuas, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninavam seus filhos, já foi uma das formas mais rudimentares do canto que induz a gênese do medo na infância, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Essa formula muito primitiva, existe em toda a parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror fantasioso, sentimento que as nossas crianças devem afugentar dormindo. A mente de quem cede a esse medo fantasioso e alegórico certamente crescerá tendo o medo como uma referencia no mínimo limitante; uma barreira escura onde se esconde o incógnito desconhecido que faz suar suas as mãos, a boca fica seca e coração taquicardíaco. Isso é medo; não se confunde com fobias.

O futuro é a imensa fonte de inquietação permanente para a humanidade. Daí a recomendação reiterada dos filósofos para que o tiremos da cabeça para nos concentrar apenas no presente… Hum… Sei não. Tenho cá minhas dúvidas sobre essa assertiva. Tememos perder o emprego. Tememos não ter dinheiro para pagar as contas. Tememos ficar doentes. Tememos morrer. Tememos ser traídos numa relação amorosa. Tememos perder os cabelos, ganhar rugas, ficar broxas. Tememos, para resumir, o colapso dos nossos planos. É mais inteligente, portanto, dada a perniciosa carga de aflições associada aos planos frustrados, simplesmente não cultivá-los, tê-los. O medo do dia de amanhã impede que se viva minimamente em paz o dia de hoje. “A imprevidência é uma das maiores marcas da sabedoria”, escreveu o filósofo Epicuro. O Amanhã é uma incógnita.

Claro, existem medos fundamentais do ser humano: medo da solidão, do fracasso, do desprezo, do futuro, da dor, de perder a imagem e medo da morte. Além de medo das mudanças e medo da pobreza. Vez em quando me pego afoito argumentando contra a incompreensão que nos empareda com o primarismo banal e a superficialidade que grassa entre as pessoas que nos cercam. São aquelas que têm medo de falar, porque o celular fala por elas. As que citam como ganchos suportes, trechos de canções famosas tipo “Que tiro foi esse”; bordões do falecido Marcelo Rezende, “corta pra mim”, etc. Aí me vem certo medo de contrair uma progressiva síndrome afásica que me force ao silêncio da fala e à privação da leitura onde vi o medo em Rodión Raskólnikov (Crime e Castigo), Dostoiévski, quando mata a golpes de machado uma velha agiota a quem deve dinheiro e por quem se sente explorado. Aliena Ivánovna personificava a ganancia e avareza. Humilha e tortura psicologicamente os clientes desesperados de quem cobra juros astronômicos e por quem não demonstra qualquer piedade. Tenho medo de perder o vício escapista da leitura, medo de celular, medo da temática eloquente da Mc Todynho; tenho sim, tremo de medo. Morro de medo de perder a palavra articulada, aquela que penso e escrevo enquanto o cérebro processa ideias coerentes no âmbito comum da média intelectualidade brasileira. Não serei “bigbrodeado”.

Já em 1883, Francis Galton relatava preocupação em torno do bom-nascimento com o termo eugenia. Utilizando-se dos conhecimentos de Malthus, Lamarck, Darwin e das ideias circulantes na Inglaterra da época, Galton definiu eugenia como o “estudo dos fatores físicos e mentais socialmente controláveis, que poderiam alterar para pior ou para melhor as qualidades racionais, visando o bem-estar da espécie”. A busca incansável do homem pela melhor compleição física e mental dele próprio e de sua descendência que culminou com a tentativa de sistematização da eugenia com base em argumentos científicos e a esperança de melhorar e aperfeiçoar a espécie humana. Agora é tarde. Já “bigbrodearam” o brasileiro, ou quase todos. Para uma eugenia sociocultural que resulte indivíduos proficientes vamos necessitar umas três gerações.

Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.

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