Viver, existir, finitude. Sou apenas um humanista existencialista, portanto, não desperdice comigo os epítetos de depressivo, amargo, trágico, macambúzio.
Por: Mohammad Jamal.
Isso deveria ser comum a todas as pessoas. Um direito divino bem peculiar. Um determinado dia, antes do sol nascer, nós acordaríamos sabendo que o fim estava próximo, a morte, essa vizinha permanente, decidira corporificar-se presente para nos administrar nossas últimas gotas vida. Nessa hora nós já saberíamos que este seria nosso último dia de vida. Possivelmente nós já nos teríamos nos apercebidos que estávamos mal, mas como já sabíamos previamente quando nossa hora chegaria, nós comportaríamos com serena resignação. Aí, quem ainda os possui, chamaria seus entes queridos, avisaríamos a todos que iria morrer. Fecharíamos nossos olhos e, pacificamente morreríamos, simples e descomplicadamente.
Check-in para a cidade de Pés Juntos.
Chegou a hora de morrer. Aí alguém correria a casa funerária e compraria um ataúde para nos sepultar, porque aqui no ocidente, não podemos ser sepultados apenas enrolados numa manta/mortalha, um mizaar, como se faz entre muçulmanos, claro, após o obrigatório ritual de purificação do corpo. Alguém muito próximo nos vestiria com roupas discretas para a última viagem. Nada a temer; morremos de causas naturais. Talvez um único dos meus cinco netos viesse se despedir e permaneceria ao lado do meu leito de morte, quiçá curioso por compreender como acontece o milagre da morte que levaria seu avô para a eternidade.
As Proporcionalidades, dimensões e perplexidades quânticas.
Aqui vamos imaginar outra escala de tempo onde uma vida de 73 anos durasse o transcurso de vinte e oito dias ou cem mil anos e vamos nos perguntar sobre quem inventou o tempo, já respondendo-nos em voz alta: nós mesmos. Será que as formigas, os grilos, os gafanhotos, os políticos, as árvores e as aves; as estrelas enfrentam as questões do tempo à nossa semelhança? Claro, consideradas as dimensões em que cada um se confina? Eu já não cheiro bem. Tenho o cheiro do tempo que passou sobre mim por isso, tento disfarçar o cheiro do tempo com alguma colônia barata fazendo-me transparecer vivo e tolerável para aqueles à minha volta. Arthur Schopenhauer em sua indiscutível e inquestionável filosofia já havia me incutido este entendimento: “Esse mundo é um inferno habitado por espíritos atormentados e demônios”. Nunca pude contestá-lo, faltam-me os elementos essenciais para sustentar uma contestação minimamente racional. O tempo não cicatriza feridas, ele apenas permite o alivio da dor se você souber como fazê-lo.
Muitas vezes sinto uma dolorosa pena das crianças. Às vezes penso que deveríamos poupa-las das desgraças desta vida ou, ao menos, poupar às mães por ter dado vida a elas. Aqui e agora não há mais tempo para Arthur Schopenhauer. Eu estaria em dúvida se voltasse no tempo e pensasse em trazer outra vida para este mundo; e dizer que “contribui” com três! Que horror. O mundo está podre, totalmente diferente de quando nasci. O mal, a quem fingimos complacentemente não ver, está dentro das nossas próprias casas, tem assento à nossa mesa, come dos nossos alimentos e até bebe nosso sangue e destrói todos os nossos sonhos e esperança.
O simbolismo das minhas leituras e resquícios das obsoletas impressões da infância.
Sonhos, utopias e fantasias do absurdo. Recorro ao conteúdo de um livro que li quando ainda criança e que fez transbordar meu coração com falsas ilusões tipo aquelas da cidade de Oz, lembram? O livro, O Natal do Avarento – 1843 (Charles Dickens), conta a história de Scrooge, um senhor muito rico, mas também muito mesquinho, que economiza seu dinheiro ao máximo e sequer comemora o Natal, aproveitando o tempo para trabalhar e ganhar mais dinheiro. Até que na noite do dia 24 de dezembro ele recebe a visita de três fantasmas, um de cada vez: um do passado, um do presente e outro do futuro. Aquele fantasma do passado talvez representasse os velhos processos empoeirados adormecidos nos arquivos dos Tribunais? O fantasma do presente figurativamente, representar a visita do representante do Ministério Público com uma parruda equipe da PF com mandatos de busca, apreensão e prisão? E o fantasma do futuro, o edital da sua promulgação de Ficha suja, cassação dos direitos políticos por cem anos? Fantasias justicialistas meramente irônicas. Esses fantasmas vão mostrando para o homem os acontecimentos de sua vida sob outro ponto de vista e, aos poucos, tocando seu coração. Quando ele acorda na manhã seguinte, talvez em Brasília na sua mansão à beira do lago Paranoá, o nosso Scrooge – político ávido por dinheiro sujo de sangue – é uma nova pessoa e começa a corrigir os erros da sua vida. Lembrou-se do livro agora? Lembre-se que o texto do livro citado acima não está descrito com fidelidade, pois foi inserido por mim com insurgências contestatórias que fariam vibrar na sepultura os ossos do anarquista Mikhail Bakunin.
Feliz Natal!
Declarando-me fora desse rol, por razões de foro íntimo, não aprecio essa festa de forma alguma; mas reconheço que é difícil encontrar por aí que não goste do Natal, não é verdade? Até porque as pessoas costumam ligar essa época do ano aos presentes de Natal, à faustosa e luminescente decoração, às bebidas e confraternizações e, claro, às belíssimas comidas da ceia. Mas, você sabe o que realmente significa o Natal? Não é só dar e receber presentes caros, encher o bucho de comida e “mé” até não haver espaço para respirar. Tem mais! Sim, tem o dia vinte e seis, data consagrada à solidariedade natalina; dia de doar, de presentear, de mostrar ao nosso próximo carente, distante, quão bondosos ainda somos. O dia da limpeza solidária do descarte com carreto inteiramente grátis. A carcaça do peru, só ossos; aquela deliciosa salada de maionese e o arroz à grega, ambos azedos; as aparas de panetone e as muitas tirinhas vermelhas que ninguém comeu – restos do queijo de cuia -, as rodelas de abacaxi que decoravam o dourado e suculento pernil e o fêmur, canela de osso do presunto de Parma, sem nem o tutano… etc. etc. O enorme televisor com a tela queimada; aquela lavadora enferrujada com o motor fundido, dois pneus carecas do carro da Cris; os tênis e as bermudas rasgadas do Junior; duas sandálias de dedo não Havaianas, são da Republica do Congo, finas como papel com correias quebradas, duas sobrinhas rasgadas e um colchão bem esburacado onde o dog dormia. Bom, vou parar por aqui. Isso dá quase uma caçamba de utilidades solidárias para gente humilde; porque pobre é aquele que não carrega Deus no coração. Feliz Natal viu! Coma bastante.









