
O destino de todos é, certamente, a evolução.
Por Caio Pinheiro e Rodrigo Melo.
São corajosos (as) os (as) que refletem sobre os caminhos percorridos pelo Brasil. Compreender as artimanhas que liquidam nosso amanhã é tarefa corajosa e implica estar comprometido (a) com a construção de uma nação mais justa e inclusiva, onde as garantias democráticas e os direitos fundamentais sejam bens inegociáveis. Todavia, nesses tempos de polarização, os que cultivam tais valores têm sido acusados de destruir pontes e construir abismos. Infelizmente, a discordância virou sinônimo de inimizade nesse país que tem nas diferenças seu maior patrimônio.
A máxima aristotélica nos diz que “o homem é um animal político”. Com efeito, naufragados numa terra desesperançada, onde o amanhã traduz-se num presente aterrorizante, precisamos priorizar a política das reaproximações. Fomentar o diálogo. Alimentar as empatias. Equacionar as diferenças. Despir-se das vaidades. Celebrar o altruísmo. Encarcerar as hostilidades. Abrir-se ao outro. Praticar a alteridade e amar o seu próximo como a si mesmo. Sim, precisamos nos afirmar enquanto animais que agem politicamente em favor do outro. Isso é agir com humanidade!
Aproveitemos a ambiência criada pela pandemia para renegar os valores que fazem do “homem o lobo do próprio homem”. Lembremos que a sociedade civil nasce do pacto pela vida. Há muito sabemos o quão nocivo é deixar-se escravizar pelos instintos. Nossas dores demostram que há pertinência na lógica existencialista, ou seja, razão e emoção são passíveis de coexistirem harmoniosamente. Que encontremos a zona de equilíbrio. Busquemos materializar o ideal que é tão bem projetado pela ficção literária. Desencarceremos o mundo utópico preso em muitas subjetividades.
O destino de todos é, certamente, a evolução. A humanidade inteira ruma em direção a essa Luz – alguns em disparada, outros com mais lentidão, e há ainda aqueles que por um momento ou outro se sentam à beira do caminho para descansar. Os que correm, os que buscam sem perda de tempo se desvencilhar das enferrujadas correntes, que por séculos o ser humano arrasta, no fundo descobriram que, além de todos os rótulos, de todas as siglas e de toda a classificação, o ser humano só precisa ajudar. Não é algo de direita ou de esquerda. É humano e universal. E está aí, quem sabe, a verdadeira significação de existir.
Há uma conhecida parábola sobre as duas rodas que movimentam o mundo. Uma delas nos faz andar para frente, a outra nos leva para trás. E tudo o que somos, sentimos, pensamos e, consequentemente, chegamos a fazer, move uma roda ou outra do lugar. Acontece que vivemos nesse mundo em que importa menos o que se é e mais o que se aparenta ser. Por isso nos trancamos em nossos juízos pré-concebidos sobre tudo, por isso brigamos por míseros assuntos, por isso escolhemos, como nossos representantes, pessoas tão ruins – porque eles são como nós. Incansáveis egoístas a descansar por um tempo indeterminado na corrida em direção à luz. Evoluir é trabalhoso. Evoluir é sair de onde se acostumou a ficar.
Que esses tempos tão esquisitos e perigosos, que esse vírus que se avizinha cada vez mais e ronda as nossas portas sirva não apenas para nos amedrontar. Que ele também nos faça resgatar a inocência. Que funcione como um catalisador entre o que nos transformamos e tudo aquilo que deixamos de ser. E que isso faça com que a roda da evolução, cada vez mais, continue a girar.
E assim chegamos ao termo desse caminho concebido como um pequeno manifesto ao diálogo. Uma maneira de ser no mundo; o diálogo receptivo à diversidade das narrativas precisa ser o epicentro das nossas relações. À vista disso, nós, tão nós em nossas singularidades, resolvemos dialogar sobre o diálogo inocente e possível. Um Caio e um Rodrigo. Um preto e um branco. Um mais gordo e outro mais magro. Um candomblecista e outro espírita. Dois que veem no diálogo o único caminho para evitar a irreversibilidade das consequências de chegarmos ao fundo desse poço chamado de caos sanitário.
Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.
Rodrigo Melo é escritor.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.









Uma resposta
Parabens pela reflexao e que essas palavras reflitam em atitudes melhores de todos.