Cai mais um bastião no Alto do Beco do Fuxico

Em boteco não se fala em preço e sim em valor, em que o custo-benefício não se mede pelo número de prestações ou centavos de diferença, mas sim pelo serviço prestado, a intimidade do personal-boteco, dos tira-gostos e temperatura ideal da cerveja. Existem os mais exigentes, aqueles que não dispensam sentar à mesa e já ser atendido com a cachacinha de sempre, mesmo sem ter pedido.

 

Por Walmir Rosário.

É da minha natureza ficar indignado! Não sei se por defeito de fabricação ou simples estilo de viver, quem sabe de tanto presenciar fatos e ações que não são do meu feitio e, deveras, provoca minha indignação. Todo esse desgosto por uma simples postagem no Whatsapp feita pelo amigo Paulo Fernando Nunes da Cruz (Polenga), dando ciência que a Confraria do Alto Beco do Fuxico teria chegado ao fim.

E não se tratava de uma das famosas pegadinhas do tipo 1º de abril. Acompanhava o explicativo texto uma foto em que podia se ver – com esses olhos que a terra há de comer – uma enorme placa de aluga-se. E o motivo, segundo os confrades, teria sido a mudança – de mala e cuia – do boss José d’Almeida Senna, tido e havido como o promoteur, o Chico Recarey do Alto Beco do Fuxico.

Confesso que fiquei muito abalado com a triste notícia e logo veio em minha mente aquelas imagens que recentemente desfilaram nas redes sociais, em que o Bar do Araújo teria perdido seu espaço para uma igreja protestante. Imediatamente liguei para alguns amigos e confrades para encetarmos uma campanha pela internet, no sentido de não perdermos mais um bastião da boemia encravado no Alto Beco do Fuxico, em Itabuna.

E logo em Itabuna, que nenhuma cidade baiana conseguia cometer o tresloucado gesto de tentar se rivalizar em número e qualidade de botecos, exímios prestadores do melhor serviço aos distintos clientes. Pelo que soube – mas ainda sem comprovação científica –, deveria ser os ares infestados pela Covid-19, aniquilando quarteirões inteiros e seus respectivos bares, fechados pelos competentes decretos.

Somente após esse ímpeto é que fui saber da verdade e de como os fatos se desenrolaram. Em parte, culpa minha por não ter batido o ponto com a frequência desejada no Alto Beco do Fuxico, já que me encontro recolhido por um bom tempo na pachorrenta Canavieiras, sabendo das notícias externas apenas por ouvir dizer, pois a nossa imprensa não descerá do seu pedestal para informar fechamento de botecos.

Quando vi aquela foto do boteco com a placa de aluga-se, imediatamente senti o sangue correr aferventado nas veias e passaram velozmente imagens em minha cabeça das décadas em que desfrutei da amizade e das cervejas com os amigos. Como costumo dizer, o boteco é a extensão do lar, uma espécie de local sagrado em que nos desfazemos de todas as perturbações diárias para chegarmos em casa com a alma lavada.

E a ideia ruiu, caiu por terra, pois o José d’Almeida Senna, oficialmente aposentado após décadas de labor diário na área federal, resolveu – definitivamente – não mais se posicionar do lado de dentro do balcão, como fez por muitos anos. Agora prefere se dedicar a mimar os netos – com muita razão – e visitar bares e restaurantes soteropolitanos até que encontre local adequado para instalar sua cadeira cativa.

Enquanto José Senna flana pela capital baiana, os confrades itabunenses tentam refazer suas vidas boemias, preambulando pelos bares da cidade até que se estabeleçam com ânimo definitivo no que mais lhe apeteçam. Somente quem conhece do ofício de bom frequentador de boteco é que pode avaliar a falta que faz se tornar um boêmio errante sem um boteco para aliviar as tensões do dia a dia.

Não imaginem os senhores que essa é uma tarefa fácil, corriqueira, daquelas em que assume uma tarefa fácil e sai como um ser errante para comprar um sapato ou qualquer peça do vestuário. Não basta encontrar a mercadoria, aceitar o preço, dividir em suaves prestações e mandar embrulhar. Esse tipo de comércio não se coaduna com o boteco e se separam por léguas de distância.

Em boteco não se fala em preço e sim em valor, em que o custo-benefício não se mede pelo número de prestações ou centavos de diferença, mas sim pelo serviço prestado, a intimidade do personal-boteco, dos tira-gostos e temperatura ideal da cerveja. Existem os mais exigentes, aqueles que não dispensam sentar à mesa e já ser atendido com a cachacinha de sempre, mesmo sem ter pedido.

Eu tinha um grande amigo e parceiro constante na visita aos botecos, o saudoso poeta, jornalista, professor de química e biologia, Juarez Vicente de Carvalho, que, com ar professoral, do fundo de sua sapiência, vaticinava: “Boteco tem que ter alma, é um estado de espírito. É tudo uma questão de hermenêutica e se encontra entre a dialética e metafísica”. Basta!

Apesar de toda a tristeza, semana passada obtive uma notícia alvissareira: a presença de José Senna, que deixou a soterópolis e foi visto sentando praça no Beco do Fuxico, mais precisamente no Fuxicaria. Com isso, meus pensamentos retrocederam a 28 de outubro de 1981, data solene em que Ithiel abriu o bar que originou a Confraria do Alto Beco do Fuxico. E eu, que já me preparava para comemorar os 40 anos do bar, continuo errante à procura de porto seguro.

Walmir Rosário é jornalista, radialista e advogado.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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