Juventude, luta democrática e estadualização da UESC

A estadualização da UESC, além do esforço das pessoas que a construíram, é fruto de um período de liberdade, de democracia, em que foi possível dialogar, mobilizar e reivindicar abertamente, sem medo de morrer.

Por Júlio Gomes.

Éramos todos muito jovens, tínhamos pouco mais ou menos de vinte anos, muitos ainda com cara de adolescentes. Estudávamos em uma faculdade que, embora tivesse raízes em um órgão público, a CEPLAC, não era pública e cobrava mensalidades, o que excluía a imensa maioria dos jovens das camadas mais populares de frequentar suas salas de aula.

Resolvemos, no renascente Movimento Estudantil, lutar pela estadualização da então denominada FESPI, sendo essa nossa principal bandeira de luta, e agregamos quem quis fazer parte.

Muitos nos viam como perigosos – ou, quem sabe, como alienígenas – pois alguns eram abertamente comunistas, outros de um partido novo, vermelho, chamado PT, e outros ainda de referências ou origens obscuras. Mas tínhamos o charme dos revolucionários, e mesmo quem não aderia nos admirava em silêncio ou nos respeitava.

Vivíamos no final da década de 1980 e, logo em seguida, de 1990. Respirávamos o ar de esperança que o fim da Ditadura permitia soprar. Uma nova Constituição, recém promulgada em 1988, amparava nosso desejo de viver em um novo Brasil, mais justo, soberano, inclusivo e democrático.

Como foi bom o fim da ditadura! Nós, estudantes, podíamos finalmente fazer nossas assembleias, escrever e divulgar panfletos, usar megafone na portaria, criar fóruns de debate dentro da faculdade, percorrer e dialogar em cada sala de aula e o melhor de tudo: sem ter medo, sem que fosse preciso se esconder, sem ter que criar senhas, codinomes, e sem medo de ser arbitrariamente preso, torturado e “desaparecido” pelos agentes da ditadura.

Assim fizemos! Lançamos mão de tudo que a vivência democrática permite e impulsionamos nosso movimento: arregimentamos pessoas e arrecadamos dinheiro de forma absolutamente legal, utilizamos todos os meios de comunicação então disponíveis, inclusive com uma agência de publicidade paga por nós estruturando a Campanha da Estadualização e, ao final de muita luta, vencemos quando o Governo da Bahia colocou a FESPI no orçamento público do estado, acabando com a cobrança de mensalidades; e com o Ato Administrativo que estadualizou a Fespi, transformando-a na Universidade Estadual de Santa Cruz, a UESC.

A conquista da estadualização não pode ser comemorada sem que lembremos da geração dos pais daqueles jovens que protagonizaram a luta pela estadualização nas décadas de 1980/1990.

Nossos pais, que foram jovens nos anos de 1960/1970, não puderam fazer nada disso. O governo ditatorial e opressivo que existia naquela época impedia que qualquer brasileiro pudesse organizar movimentos, reivindicar algo publicamente, usar o rádio ou a TV, reunir-se para falar livremente sobre qualquer assunto ou mesmo publicar uma simples música ou escrever um panfleto, colocando todos os que ousavam fazê-lo como potenciais “inimigos do Brasil”, portanto sujeitos a prisão, tortura e morte.

A estadualização da UESC, além do esforço das pessoas que a construíram, é fruto de um período de liberdade, de democracia, em que foi possível dialogar, mobilizar e reivindicar abertamente, sem medo de morrer.

Viva a estadualização da UESC em seus 30 anos e viva, sobretudo, a ainda frágil Democracia Brasileira, único regime capaz de garantir a participação do povo do Brasil nos destinos de seu país e de nos levar à felicidade que tanto desejamos.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *