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ADEUS, ITAPARICA

Por João Ubaldo Ribeiro, encontrado no Terra Magazine.

Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terra, na casa onde nasci. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo. De lá para cá, muito se tem perpetrado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.

Conheço esse progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.

Também conheço os argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente responsáveis. Na verdade, sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aquele que investe aqui usando os mesmos padrões aplicados em Pago-Pago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através do abastardamento de toda a verdadeira riqueza das populações assim atingidas.

As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre a estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda.

Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso. Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shoppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional.

Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram substituídos por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro sócio-econômico e cultural, os saveiros seriam subsidiados, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda a região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.

Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daqui a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não têm como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouvi todos os verbos terminados em “izar” com que julgam dar autoridade a seu discurso. É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas, pelo menos, não traio meu velho avô.

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2 respostas

  1. Roberto Corsario disse:
    22 de janeiro de 2010 às 19:44

    Bons tempos aqueles, que seguir em cima de uma carga de banana, de Nazaré a São joaquim em um saveiro grande, bonito e lento. Quarta feira, dia de feira da banana em Nazaré, momentos de gloria, onde comerciantes e agricultores negociavam seus produtos para seguirem de saveiros até Salvador, numa dessas cargas lá estava eu sendo negociado (digo, acertando passagem) para aportar em salvador, saindo de nazaré quinta pela madrugada e chegando na sexta a noite. Hoje temos a necessidade de sermos rapidos, meios de transportes de primeiro mundo, é a concorrencia, esqueçamos os bons tempos, precisamos nos adequar ao desenvovilmento, boas lembranças, apenas boas lembranças, não podemos ser contra a uma ponte que levará a policia, samu, e todos os beneficios a aqueles que sofrem pela demora da travessia. As ilhas são partes que está no dia dia do povo de salvador, por que não encurtar esse maravilhoso pedacinho para que seja conhecido por mais e mais soteropolitanos que gostam de boas praias. Que não seja apenas mais um documento de campanha eleitoral.

    Roberto Corsário (filho de Nararé) hoje Zona Sul de Ilhéus.

  2. no ano de 2010 e este brilhante escritor demoniza o progresso em favor de suas memorias. pergunte ao povo de itacaré como era dificil conseguir um botijão de gás antes da estrada. Já ouvi bichos-grilo reclamando que hoje itacaré se popularizou, tem muito turismo, eles “preferiam quando era uma mera colônia de pescadores”. O Brasil está em iminência de ser um player de proporções mundiais em todos os aspectos e necessita de infraestrutura para suportar esse desenvolvimento. Que venha o porto sul, que venha a segunda ponte do pontal, que venha uma internet de banda larga de verdade, que venha a ponte Belmonte-Canavieiras, que venha o progresso estampado em nossa bandeira e tão aguardado por todos que querem que este país se desenvolva e seja respeitado.

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