BLOG DO GUSMÃO

AMOR E DEMOCRACIA

Imagem do blog Anja da Lua.
Imagem do blog Anja da Lua.

Por Tristan Alzu

Depois que passa a violenta emoção, após a leitura, natural é perguntar a razão que leva alguém a escrever tantos parágrafos repletos de palavras adocicadas e piegas para declarar o seu amor por uma mulher.

O amor, com seu caráter pessoal, drama privado que não diz respeito ao destino dos povos, é, sempre e cada vez mais, um assunto relegado aos subterrâneos da vida social. O amor de um homem por uma mulher, quando expresso em poeminhas declaratórios, é ridículo e dispensável, embora seja necessidade fisiológica. Não existem poemas que louvem a ida matinal ao banheiro para o exercício defecal. Esse gesto universal só é comparável ao poema de amor e ao voto nas democracias ocidentais. Se bem que esse último só é exercido com peridiocidade bianual.

Pois bem: amar e defenestrar resíduos são atividades que concorrem com a consciência política do cidadão. Para votar o cidadão é orientado pela bússola do intestino e pelos desejos de amar alguém. Eis a santíssima trindade do sufrágio universal. Amar, defenestrar e votar.

A poesia universal, desde os persas até os chineses misteriosos, leva ao santuário essas pregas íntimas da fisiologia política. As forças mais profundas do homem nascem desse desejo de ordenar os povos em volta da cozinha e do vaso sanitário. Entre um intervalo e outro temos que votar. Expressar como desejamos que o Estado forneça as condições para fornicar e defenestrar, logo no raiar da manhã.

Tristan Alzu é visionário e colunista do Blog do Gusmão.

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