Dois pesos e duas medidas ou o que queremos, afinal?

Lembro então do renomado Geógrafo baiano Milton Santos, reconhecido internacionalmente e pouco lido no Brasil, a dizer que “A classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar”, em uma assertiva que infelizmente ultrapassa a classe média para incluir tanto a classe dominante quanto todos aqueles que se afinam ideologicamente com o aforismo, mesmo que também sejam pobres e míseros subempregados.

Por Júlio Gomes.

tem chamado a atenção desta pessoa que, arrefecidas as tempestades de testosterona da juventude, finalmente parece conseguir raciocinar de forma mais ajuizada, observar com atenção e perceber o antes invisível aos olhos e à sensibilidade.

Observo, em muitos dos colegas, amigos e pessoas que me cercam uma intrigante dicotomia, que se me torna cada vez mais incômoda.

Sendo empregados como eu, tendo vínculo de trabalho em que está presente a subordinação e a obrigação de cumprir ordens e horários, esses nossos colegas têm, em retribuição, os direitos ainda inerentes à nossa condição de empregado tais como férias, décimo-terceiro salário, contagem de tempo de serviço para a aposentadoria, carteira assinada e outros direitos típicos das relações de trabalho tradicionais.

Mas estas mesmas pessoas – não todas, mas parte assustadoramente grande delas – quando têm empregados ou trabalhadores produzindo para si, quando se veem na condição de patrão, chefe ou algo similar, fecham o semblante e tornam-se rudes no afã de negar tudo isso aos seus próprios empregados e colaboradores.

Aliás, a primeira coisa que negam com veemência a quem trabalha para eles é a condição de empregado, porque sabem que sê-lo é ter direitos, é gerar obrigações para quem se beneficia do trabalho alheio.

Tais pessoas estão empregadas mas odeiam a ideia de ter de assinar a carteira de trabalho de outrem e negam a todos que para eles trabalham o FGTS, as férias, o décimo terceiro, enquanto o defendem com unhas e dentes, ferozmente, para si próprios.

Lembro então do renomado Geógrafo baiano Milton Santos, reconhecido internacionalmente e pouco lido no Brasil, a dizer que “A classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar”, em uma assertiva que infelizmente ultrapassa a classe média para incluir tanto a classe dominante quanto todos aqueles que se afinam ideologicamente com o aforismo, mesmo que também sejam pobres e míseros subempregados.

Esquecem-se de que o Direito, como o concebemos nas sociedades modernas e desenvolvidas, iguala, eleva, promove e mesmo quando é duro faz-se respeitar porque impõe-se a todos indistintamente, promovendo a igualdade jurídica.

De forma contrária o privilégio traz mágoa, revolta, rancor, porque expressa a afirmação de uma desigualdade injustificável, injusta, opressora, que em passado não muito distante levou a Europa à Revolução Francesa, onde os privilégios do clero e da nobreza no Antigo Regime foram afogados no mar de sangue desta Revolução, que submergiu não só aos privilegiados como também ao próprio povo que de armas nas mãos lutou por Justiça para construir uma nova ordem social em que as pessoas deixaram de ser súditos do rei para ser cidadãos; e deixaram de ser objeto de uso e exploração para serem sujeito de seus próprios direitos e donos de seus destinos.

Mas se você, amigo leitor, quase nada sabe acerca da Revolução Francesa ou nunca ouviu falar do Professor Milton Santos, quando tiver pessoas subordinadas a você, sobretudo na condição de trabalhadores, de empregados, lembre-se apenas de um homem chamado Jesus, que há dois mil anos atrás andou pela Judeia e dizia aos seus contemporâneos, para que o ouvíssemos até hoje: não deseje para os outros aquilo que você não deseja para si mesmo.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz



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