
Por Thiago Dias
No livro Por que os líderes mentem (2011), o professor John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, toma como um de seus exemplos a decisão política do governo Bush de invadir o Iraque. A justificativa era a ameaça de armas químicas nunca encontradas. Naquele momento, em 2003, interessava ao grupo político do presidente norte-americano demonstrar que a guerra contra Saddam Hussein não era uma questão de escolha, mas sim de necessidade.
A guerra entre duas nações e os discursos que a racionalizam estão num universo de relações amplas e complexas, a começar pela necessária aceitação do assassinato como instrumento racional do poder. Atuar nesse ambiente é papel para a propaganda do Estado Nacional. Nesse ramo, o Nazismo foi precursor de recursos estéticos que ainda predominam em campanhas políticas. A expressão “campanha publicitária” não nega a condição da propaganda como espécie de esforço de guerra.
A onipresença da propaganda, que muitas vezes substitui o diálogo até nas relações pessoais, foi denunciada pelo filósofo Albert Camus no ensaio O homem revoltado, de 1950, escrito sob o impacto da Segunda Guerra Mundial e dos aspectos mais trágicos do socialismo russo. Ele lembra que, em determinado momento da consolidação da ideologia totalitária, a União Soviética se viu às voltas com a necessidade de censurar escritos do próprio Karl Marx. Naquela altura, parte do pensamento do filósofo e economista alemão já havia sido transformada em heresia pelos revolucionários. Segundo Camus, as revoluções que ele conheceu produziram somente assassinos ou hereges.
A dinâmica da propaganda como esforço de convencimento, naturalmente, não é restrita à política nacional ou internacional. Está presente em qualquer esfera onde a linguagem é instrumentalizada como meio de sedução. Nas relações sociopolíticas ou interpessoais, haverá sempre a possibilidade de encontrarmos gente disposta a usar o poder para editar a história e convencer o outro de que o tecido branco é azul.
O governo Jabes Ribeiro nos ajuda a ilustrar essa dinâmica da propaganda em escala municipal. Hoje (28), a Prefeitura de Ilhéus divulgou nota sobre o concurso de 2016. O texto afirma que o certame foi “defendido pelo prefeito Jabes Ribeiro desde o início de sua gestão, em 2013”.
A informação da prefeitura resiste a encarar a realidade. O governo passou longe de qualquer menção a concurso no início deste mandato. Ao contrário. Fez seleções simples, limitadas às análises de currículos, que acabaram canceladas pela Justiça.
Além disso, em 2015, ao invés de concurso, o governo propôs a terceirização da gestão da Secretaria de Saúde. A ideia soou absurda para o Ministério Público do Trabalho. Segundo a procuradora Sofia Vilela de Moraes e Silva, a proposta feria justamente o princípio do ingresso na administração pública por meio de concurso.
Ao longo de todo o mandato, diversas ações do governo apontaram na direção contrária à do concurso. A procuradora do MPT chegou a informar aos membros da cúpula da prefeitura que eles poderiam ser responsabilizados diretamente, caso deixassem de fazer o certame para terceirizar a gestão da saúde.
Depois de desistir da terceirização, o governo Jabes Ribeiro voltou a investir pesado na propaganda sobre a necessidade de demitir servidores contratados antes de 1988, que não têm estabilidade. Argumentou que isso seria necessário para realizar o concurso. Muitos funcionários que estavam perto da aposentadoria decidiram antecipá-la por causa do medo gerado por esse discurso. Foi um exemplo prático em que a propaganda atropelou o diálogo.
Como hereges podem dizer o contrário, agora o governo propaga que sempre defendeu o concurso. Como se sabe, heresias são combatidas com propaganda.
Thiago Dias é repórter do Blog do Gusmão.










